Israel descobre rede de túneis do Hezbollah no norte do país

04 de Dezembro de 2018
Por Henry Galsky Na foto, soldado da ONU patrulha fronteira entre Líbano e Israel

Há uma nova operação israelense em curso dentro de seu próprio território. Chamada de North Shield (o escudo do norte) envolve a fronteira entre o país e o Líbano (norte de Israel, sul do Líbano). Na porção libanesa, a área é amplamente dominada pela milícia xiita Hezbollah – considerada hoje por Israel como uma de suas principais ameaças estratégicas. De acordo com Jerusalém, o setor de inteligência do país descobriu uma extensa e diversificada rede de túneis. 

Não é exatamente uma novidade, até porque os israelenses já haviam detectado este tipo de construção no passado, levando o governo a criar artificialmente uma série de barreiras e penhascos de forma a evitar que as escavações pudessem penetrar com sucesso em território israelense. 

A novidade é que, apesar disso, ainda há túneis – e bem construídos. O primeiro deles a ser descoberto parte de dentro de uma casa no vilarejo libanês de Kafr Kila e consegue por 40 metros no norte de Israel. O túnel tem 200 metros de extensão, iluminação e aparatos de comunicação. 

De acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF), o Hezbollah teria levado dois anos para concluir o projeto. Desde 2014, as IDF têm recebido denúncias de moradores do norte do país sobre esses túneis, mas não havia obtido resultados mais significativos. Até que o setor de inteligência conseguiu localizar as construções. Foram, portanto, quatro anos de esforços e busca de informações até as ações realizadas nesta terça-feira. 

A operação israelense tem como objetivo destruir este e outros projetos. Para além do óbvio, é preciso enxergar o quadro mais amplo. 

Há três semanas, o governo israelense quase caiu depois de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aceitar o cessar-fogo com o Hamas, que lançou cerca de 500 mísseis sobre o sul de Israel. Na ocasião, o então ministro da Defesa Avigdor Lieberman abandonou seu posto sob argumento de discordância do primeiro-ministro. 

Agora, vai tomando corpo a narrativa de que o cessar-fogo teve como objetivo interromper rapidamente a escalada no sul de forma a se concentrar nas ameaças do norte do país. Sem a menor dúvida, o Hezbollah representa um inimigo muito mais poderoso que o Hamas. 

Entre 1978 e 2000, Israel manteve o controle de uma faixa de 18km de território no sul do Líbano. Sob pressão interna, o então primeiro-ministro Ehud Barak ordenou a retirada das forças israelenses. Desde então, o Hezbollah se estabeleceu na região. 

Seis anos depois, Israel e Hezbollah travaram a primeira guerra aberta entre os dois – chamada de Segunda Guerra do Líbano. O confronto durou 34 dias e, apesar do maior número de baixas, o Hezbollah conseguiu sair do conflito fortalecido. 

Com o auxílio de transferências de grandes somas de dinheiro e armamento por parte do Irã – o principal ator regional xiita, assim como a própria milícia libanesa – o Hezbollah tem arsenal hoje estimado entre 120 mil e 150 mil mísseis apontados para Israel. 

E a descoberta dos túneis mostra um novo cenário – que para os israelenses é muito grave: a possibilidade do próximo conflito ser travado no interior do território do país. Ou seja, ações por terra com milícias xiitas, soldados de Hezbollah e Irã invandindo Israel apoiados pelo lançamento de mísseis. 

Mesmo que as ações desta terça-feira tenham sido realizadas por Israel dentro de seu próprio território, elas representam exposição e vitória israelense parcial diante do Hezbollah, uma vez que os túneis foram descobertos – inquestionavelmente uma das principais possibilidades de concretização de ataque surpresa. Resta saber o que o próprio Hezbollah e até o Irã poderão coordenar como contra-ataque a partir disso.