Por que os túneis do Hezbollah podem resultar em ainda mais instabilidade com Israel

11 de Dezembro de 2018
Por Henry Galsky Quando Israel e o Hezbollah se enfrentaram diretamente em 2006 no conflito que ficou conhecido como Segunda Guerra do Líbano, a estimativa era de que a milícia xiita possuía algo em torno de dez mil mísseis. Hoje, este arsenal se multiplicou possivelmente entre 12 a 15 vezes graças às transferências de armamento realizadas pelo Irã nesses últimos 12 anos. Apesar disso, a quantidade de mísseis do Hezbollah poderia ser ainda maior, uma vez que os israelenses têm atacado comboios de transporte de mísseis desde o fim do conflito de 2006. 

Um episódio determinante para a formação do cenário atual passou despercebido. No final de agosto de 2017, Benjamin Netanyahu esteve na Rússia e se encontrou com Vladimir Putin. A pauta do líder israelense tinha como único objetivo apresentar as demandas do país a partir do novo quadro em formação no Oriente Médio. 

Na sequência do encontro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou favoravelmente pela renovação do mandato das Forças da ONU no Sul do Líbano (UNIFIL). Israelenses e americanos pressionaram para que a redação que possibilitou o novo acordo mencionasse explicitamente as atividades desenvolvidas pelo Hezbollah em desacordo com a resolução 1701 que encerrou a guerra de 2006. 

A Rússia não aceitou o pedido, de forma a garantir justamente o oposto: que a nova resolução excluísse seus parceiros xiitas. Para os israelenses, esta posição foi entendida como a resposta oficial de Moscou às demandas apresentadas por Netanyahu na reunião com o presidente Putin.

O Hezbollah adquiriu novo status doméstico e internacional a partir da guerra contra Israel, em 2006, mas principalmente graças às vitórias e alianças políticas que conseguiu obter no Líbano. 

Como já escrevi por aqui, nos últimos dez anos o passo mais avançado do grupo não ocorreu nos campos de batalha, mas na política libanesa. A declaração do presidente libanês, Michel Aoun, apoiado politicamente pelo Hezbollah, abriu um novo caminho para a milícia xiita: 

“As armas da resistência (Hezbollah) são parte essencial da defesa libanesa”, disse. 

O Hezbollah, integrante da sociedade libanesa, adquire pela declaração de Aoun institucionalidade militar, podendo inclusive se sobrepor ao exército libanês (o que já ocorreu na prática). 

Este é um caminho contrário ao que costuma acontecer historicamente, caso inclusive de Israel após a fundação do Estado judeu em 1948. Quando a institucionalidade se apresenta, os grupos paramilitares depõem as armas, e forças regulares de defesa são estabelecidas com todos os seus benefícios e obrigações. 

O caso libanês parece se encaminhar no sentido oposto: a institucionalidade desiste ou se alia ao grupo paralelo. Nesta situação, um grupo que, inclusive, é financiado por outro Estado nacional com agendas política e militar próprias. 
O episódio de descoberta dos túneis do Hezbollah traz ao centro do debate não apenas as crises internas políticas em Israel, mas a visão mais ampla que hoje a cúpula do governo em Jerusalém tem sobre o Líbano: qualquer ação do Hezbollah será enfrentada como ato de agressão do próprio estado libanês. 

A liderança do país já declarou no passado e sempre faz questão de repetir que, seja qual for a resposta – se ela vier para além das explosões dos túneis no lado israelense da fronteira –, o Líbano será considerado integralmente responsável pelas ações do Hezbollah.