Guerra comercial, espionagem e as ambições internacionais da China

18 de Dezembro de 2018
Por Henry Galsky Ao longo do mês de dezembro, estamos assistindo ao desenrolar de um tipo de disputa que, para além das guerras mais evidentes entre exércitos nacionais e toda a sorte de grupos terroristas, deve ser uma das marcas dos conflitos de agora em diante. A prisão de Meng Wanzhou, Chief Financial Officer (CFO) da empresa de tecnologia chinesa Huawei, no Canadá é parte de um novo processo global: a tentativa dos governos, do Ocidente e do Oriente, de conter as ambições econômicas e geopolíticas de Beijing.
 
Wanzhou foi detida no Canadá a pedido dos EUA. Os norte-americanos a acusam de fraude envolvendo milhões de dólares em transações com os iranianos de forma a que Teerã pudesse encontrar caminhos para fugir das sanções aplicadas por Washington em função do programa nuclear do país.
 
Mas não se trata apenas disso. Há crescente pressão de governos em todo o mundo para isolar não apenas a Huawei, mas também outras empresas de tecnologia chinesas. A China vive um sistema misto de economia, em que o Partido Comunista, o governo, portanto, mantém alianças estratégicas com as empresas privadas do país. Apesar de ser uma companhia de capital fechado, a Huawei sustenta vínculos de proximidade estratégica com o governo e ambos se retroalimentam na forma de abordagem ao mercado internacional.
 
É claro que este tipo de relação não ocorre apenas na China. Empresas privadas em todo o mundo mantêm proximidade a governos de forma a ampliar conquistas, mercado e gerar empregos. Mas no caso chinês, onde o Partido Comunista atua num monopólio político, as relações e estratégias se confundem. A ponto, inclusive, de cada vez haver menos diferenciação internacional na forma de enfrentamento da concorrência chinesa.
 
O Japão baniu não somente a Huawei, mas também a ZTE de participação em contratos oficiais. A British Telecom decidiu retirar o equipamento provido pela Huawei de sua infraestrutura de 4G ao longo dos próximos dois anos. A Índia, um mercado gigantesco, excluiu, em setembro deste ano, a empresa chinesa dos testes para execução de tecnologia 5G no país. Nova Zelândia e Austrália fizeram o mesmo.
 
Há cada vez mais consenso de que a “parceria público-privada” na China tenha objetivos escusos, entre eles espionagem internacional por meio dos equipamentos de tecnologia desenvolvidos nas empresas do país. O fato é que as estratégias agressivas de atuação no mercado criaram uma barreira aos chineses. Também graças aos incentivos e subsídios do governo em Beijing.

Matéria da Bloomberg aborda um ponto fundamental desta disputa entre governos de todo mundo e o governo e as corporações chinesas; o objetivo mais importante do presidente Xi Jinping é, no plano de crescimento que o PC estabeleceu, o país precisa ser menos dependente de semicondutores e software dos EUA. Este é o passo adiante que os chineses consideram ser necessário em seu projeto de superação em relação à economia americana.
 
E, claro, seria impossível imaginar que Washington assistiria a este processo sem reação. A prisão de Meng Wanzhou no Canadá está inserida neste grande contexto de guerra comercial, governamental e, ainda mais, na estratégia de grandes economias para frear o processo de expansão ilimitada da China.