Nacional x global: visões em rota de colisão

21 de Dezembro de 2018
Por Henry Galsky Há uma disputa evidente de visões em todo o mundo. Quase foi possível estabelecer que o grande debate das duas primeiras décadas do século 21 foi marcado exclusivamente pela dicotomia entre Ocidente e o fundamentalismo islâmico. Até que, é preciso dizer novamente, a nova extrema direita obteve sucesso em alguns dos principais centros decisórios do mundo, alterando a pauta de discussão. 

É claro que a dicotomia das duas primeiras décadas teve grande contribuição para moldar o momento atual. A nova extrema direita não excluiu o combate ao fundamentalismo islâmico de sua agenda, de forma alguma. Mas ampliou a abordagem. 

Aquecimento global, imigração, terrorismo, desemprego, integração econômica, nacionalismo são elementos que compõem alguns dos pontos mais relevantes e caros ao movimento. Tudo isso pode ser resumido numa nova visão dicotômica – embora com todas essas questões intrínsecas – que se manifesta: a disputa entre global e nacional. Esta é a principal discussão em curso e que segue viés de alta. Ou seja, não há indícios de que o debate esteja perto de esfriar, muito pelo contrário. 

Está presente na Europa – fincado na Hungria, República Tcheca, Polônia e Bulgária – e teve papel central na retirada da Grã-Bretanha da União Europeia. Nos EUA, dominou o processo eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca. E no Brasil adornou a campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro e promete marcar seu governo e a política externa do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo. 

É possível que a partir de janeiro o governo brasileiro também personalize a sua luta contra o globalismo em George Soros, o judeu húngaro que emigrou para os EUA depois da Segunda Guerra Mundial e tem histórico de atuar na promoção de valores liberais democráticos na Europa Oriental e nos EUA. 

Soros é o vilão preferido de regimes marcados pelo nacionalismo e pela rejeição ao liberalismo, como a própria Hungria, além de Polônia, República Tcheca e outros. Mas, em função do antissemitismo com o qual o movimento flerta em maior ou menor grau, a personificação do ódio em Soros também se manifesta em regimes como Turquia, Irã e Rússia. 

Mas é importante dizer que George Soros não é o único vilão eleito pelo antiglobalistas alinhados à extrema direita. Barack Obama, Hillary Clinton, Emmanuel Macron e Angela Merkel são outros exemplos. 

O projeto de tornar consensual a ideia de que existe uma conspiração globalista é um trabalho ainda em construção. É um processo para lá de difuso, mas que cada vez se manifesta com mais desenvoltura. 

Por isso, como exemplo deste discurso, encerro este texto citando um trecho de um antiglobalista. Dá para perceber que há uma rejeição clara ao que é internacional, sejam empresas ou mesmo fóruns multilaterais, além da tentativa de estabelecer estratificação de discursos, como se o antiglobalismo estivesse entre os derrotados pelo sistema – cujo propósito parece ser justamente reafirmar a tese de teoria de conspiração globalista. 

“O Secretário-Geral das Nações Unidas, o diretor executivo do Banco Mundial, o Secretário-Geral da OTAN, o Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio, um Prêmio Nobel da Paz, o Presidente do Conselho de Relações Exteriores, o presidente da CNN. Todos eles devem certamente ser ouvidos – assim como um senador eleito do Kansas (...), os poloneses e búlgaros desequilibrados que queriam construir cercas em suas fronteiras ou renegados membros do parlamento britânico que pressionam pelo Brexit não deveriam ser (ouvidos)”, escreve Victor Davis Hanson, historiador militar, colunista, pesquisador e ex-professor na Universidade do Estado da Califórnia.