As relações internacionais de Israel e o olhar sobre o Brasil, um aliado inesperado

30 de Dezembro de 2018
Por Henry Galsky Além de ocupar o cargo executivo mais importante da estrutura política israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também é responsável pela pasta de Relações Exteriores. Isso é fundamental para que se possa entender o lado de Israel nesta repentina aproximação com o Brasil do governo Jair Bolsonaro.

A política externa ocupa papel central nos governos de Israel. E uso o plural porque realmente não se trata de uma questão ou fascínio específico por parte de Netanyahu. As características regionais do Oriente Médio podem transformar rapidamente assuntos domésticos em crises internacionais. Este não é um privilégio de Israel, mas dado concreto que une, apesar de tudo, todos os atores da região. Uma revolta popular no Irã, o descontentamento de servidores públicos palestinos ou a crise de coleta de lixo no Líbano tem potencial para desencadear problemas que extrapolam fronteiras nacionais (aliás, todos os exemplos que uso acima são reais). 

Mesmo com acordos de paz firmados com os vizinhos Egito e Jordânia, Israel entende a própria vulnerabilidade em função da permanente instabilidade a cercar o país. Mais ainda, apesar desses acordos, o Estado judeu é alvo frequente de votações desfavoráveis nos organismos multilaterais. E este é um ponto que envolve matemática e política: entre árabes e não-árabes, há 48 países onde ao menos metade da população é muçulmana. Quando se trata de Israel, esses estados tendem a votar em bloco.  A situação numérica israelense em busca de aliados é complicada. 

Hoje, Netanyahu tem como objetivo expandir as alianças internacionais do país. Não apenas porque é preocupação sua mudar a situação de isolamento de Israel nesses organismos multilaterais, mas também porque é uma das conquistas que pretende apresentar na próxima disputa eleitoral (as eleições legislativas em Israel ocorrem em 2019). 

O projeto de expansão das relações diplomáticas – abertas ou secretas – tem sido bem-sucedido. O governo de Jerusalém tem dois pontos principais de atuação: a África e as monarquias do Golfo Pérsico (essas são as relações secretas. Embora cada vez mais abertas, como desenvolverei mais adiante). 

Na África, estão em jogo 54 votos. E Israel tem se aproximado do continente. A capacidade tecnológica criada pelo país e as soluções que encontra para problemas graves enfrentados pelos países africanos trabalham a favor do projeto. Em dezembro de 2016, os israelenses receberam representantes de 13 países da África que participaram da conferência cujo título era “Melhorando a produtividade agrícola sustentável em regiões áridas e semiáridas”. O encontro foi organizado conjuntamente pela Agência para o Desenvolvimento da Cooperação Internacional de Israel (Mashav) e pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS). 

Também em 2016, em julho, o primeiro-ministro israelense visitou quatro países da África Oriental. Na ocasião, encontrou-se com sete chefes de estado.
 
Ao mesmo tempo, o protagonismo iraniano na região e as ameaças que representa em especial às monarquias do Golfo Pérsico colocam esses países árabes ao lado de Israel. Quanto mais evidentes os interesses de expansão do Irã, mais as monarquias regionais se interessam pela aproximação ao Estado judeu. Este passou a ser o ponto comum entre esses atores que historicamente são antagônicos e com os quais Israel não tem relações diplomáticas oficiais. Pelo menos por enquanto.
 
Diante da dificuldade – mesmo interna – de encontrar uma solução para o conflito palestino que não derrube o seu governo (lembrando que Israel é um país parlamentarista e a coalizão que sustenta Netanyahu no cargo é mantida por uma maioria mínima neste momento), o primeiro-ministro caminha regionalmente em busca da costura de alianças de fora para dentro. Assim, entendendo de maneira muito clara o quadro do Oriente Médio, ele encontra cada vez mais espaço, tolerância e reduz a hostilidade a Israel entre as monarquias do Golfo. 

Em março de 2018, encontrou-se por acaso com os embaixadores dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e do Barein em Washington; em 2017, o Barein enviou pela primeira vez uma delegação de cristãos, muçulmanos e hindus para visitar Israel; em outubro de 2018, pela primeira vez os atletas do país puderam competir ostentando a bandeira israelense em seus quimonos durante o Abu Dhabi Grand Slam de Judô, nos EAU. Ao vencer suas disputas, dois judocas puderam também pela primeira vez ouvir a execução do Hatikva, o hino nacional de Israel. 

O ponto alto da política de novas empreitadas foi a visita surpresa de Netanyahu, da primeira-dama Sara e altos oficiais da segurança do país a Omã, onde o primeiro-ministro foi recebido pelo sultão Qaboos bin Said. 

O Brasil

E eis que, de repente, o Brasil elege um candidato abertamente favorável a Israel. Depois de 15 anos de governos que votavam sucessivamente contra o país nos organismos multilaterais (inclusive o governo Temer, importante ressaltar), existe a possibilidade de mudança. E, ao contrário da grande energia que Netanyahu precisa despender de forma a abrir portas pesadas e resistentes, Israel não precisou fazer qualquer esforço. Era um caminho que não estava mapeado até poucos meses atrás. 

E o Brasil apresenta muitas vantagens; ao contrário de Omã, Barein ou EAU, o país é uma liderança regional incontestável por suas dimensões, população e grande economia. E, ainda melhor, é um ator do jogo internacional que mantém relações diplomáticas com todos os países do mundo. Este é um presente com o qual Netanyahu não contava. E, claro, ele vai fazer todo o possível para aproveitar e valorizar esta aproximação.