O mito do governo

04 de Janeiro de 2019
Por Henry Galsky Uma análise ainda inicial sobre o governo diz respeito ao nascimento de um mito. E aqui não me refiro ao modo como os fãs, seguidores e apoiadores se referem ao agora presidente Jair Bolsonaro. Faço menção a um dos muitos significados do termo que estabelece a crença ou relação do grupo num suporte para ideias ou posições (uma das definições de mito).
 
O mito – dito e repetido ao longo da campanha eleitoral e repetido novamente pelo presidente Bolsonaro em seu discurso ao público durante a posse – se refere à ideia de que este será “um governo sem viés ideológico”. Mito. 

É preciso estar atento aos fatos e às escolhas. E aí entro no terreno das escolhas ministeriais, em especial a de um ministério (que tende a ser um dos mais importantes deste governo): o das Relações Exteriores.
 
De acordo com a premissa estabelecida pelo atual presidente, é preciso desvencilhar-se de ideologias e alianças forjadas por proximidades ideológicas – e aqui os exemplos são os sempre mencionados casos de Venezuela, Cuba, Bolívia etc. 

O diplomata Ernesto Araújo é um funcionário de carreira do Itamaraty. Este seria o lado técnico a que se refere o presidente. No entanto, seu nome passou a ganhar força depois que Araújo assinou texto na publicação Cadernos de Política Exterior, da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), elogioso ao presidente americano Donald Trump.

Em setembro, iniciou o blog com o sugestivo título de “Metapolítica17 – Contra o Globalismo”. Daí passou a ser observado por Olavo de Carvalho e chegou até a família Bolsonaro. 

Vale aqui abrir um espaço para lembrar a origem da ideia de luta contra o Globalismo, a que ele se refere e a forma como se aplica nesta nova era de governos apoiados pela militância de extrema direita:

O termo ganhou força, legitimidade e adesão de governos importantes ao redor do mundo – o mais importante deles, o governo americano – graças em boa medida a Steve Bannon, ex-editor do site Breitbart News, ex-estrategista chefe de Donald Trump e responsável diretamente por dar forma e peso a este novo movimento político que ele mesmo passou a chamar de direita alternativa (apenas “Alt-Right”, em inglês).
 
Para Bannon e seus correligionários, a humanidade – e nos caso americano, os EUA, claro – está ameaçada por uma elite global que planeja destruir a pureza do patriotismo, da família e do cristianismo por meio da promoção de valores internacionalistas que incentivam ondas de imigração desenfreadas aos países desenvolvidos, o temor a mudanças climáticas (que para a nova extrema direita é apenas uma narrativa mentirosa para ameaçar os empregos nacionais), a integração entre mercados, o Acordo Transpacífico, a União Europeia, a agenda LGBT, entre outros.
 
Para esta nova extrema direita – cujas bandeiras são uma atualização de velhas ideias –, o projeto ocorre por meio dos banqueiros, de governos liberais, do controle da mídia. Cada um desses países elege pautas nacionais, mas, em comum, um aspecto antigo, mas que se renova a cada geração: o antissemitismo.

Esta grande análise sobre o Globalismo não significa necessariamente que todas as suas formas e expressões encontrarão eco na sociedade brasileira, principalmente porque esta noção ainda está em processo de construção. 

Mas está claro que a ideia de cruzada antiglobalista deve influenciar diretamente o novo governo. Vejamos alguns trechos de textos publicados pelo atual ministro Ernesto Araújo em seu blog:

“Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o Globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história”.

Na luta antiglobalista, a esquerda exerce papel fundamental. A esquerda é, de acordo com esta visão, um anteparo entre homem e Deus. Mais um trecho de autoria do ministro:

“Eles querem (os militantes de esquerda) uma sociedade onde ninguém nasça nenhum bebê, muito menos o menino Jesus. Pergunto inclusive se o sadismo abortista da esquerda não provém de uma pretensão niilista de, em cada bebê, estar matando o Cristo antes de nascer”.

Toda esta análise e exposição para mostrar o ambiente em que este novo governo se insere. A ideia de que se trata de um grupo não ideológico não se sustenta. É claro que Bolsonaro e seus ministros não esta afiliados às pautas dos governos anteriores, em especial aos governos de Lula e Dilma Rousseff, pelo contrário – Bolsonaro obteve sucesso eleitoral, entre outros, por justamente ser identificado como o principal opositor aos governos petistas.

No entanto, não se trata do nascimento da primeira gestão no executivo com olhar puramente técnico – o mito em questão –, mas, aí sim, da substituição de uma visão ideológica por outra.