Israel muda forma de atuação e opta por admitir ações contra o Irã

16 de Janeiro de 2019
Por Henry Galsky O primeiro-ministro Netanyahu admitiu que Israel atacou centenas de alvos iranianos e do Hezbollah na Síria. Inclusive um depósito de armas no aeroporto de Damasco. 

Ao mesmo tempo, o agora ex-chefe do Estado Maior, general Gadi Eisenkot (na foto ao lado de Netanyahu), admitiu ao New York Times pela primeira vez que Israel realizou milhares de operações de ataque a bases militares do Irã na Síria. 

Formalmente, houve também o anúncio do fim da "Operação Escudo do Norte", que descobriu e inutilizou seis túneis que partiam do território libanês e terminavam em Israel. 

De acordo com os israelenses, o Hezbollah utilizaria as construções num eventual novo conflito como elemento surpresa de forma inclusive a ocupar por terra a Galileia, parte da região norte do Estado judeu - um evento que, se de fato ocorresse, seria inédito e teria enorme impacto em Israel e em todo o Oriente Médio. 

É raro que autoridades israelenses admitam ações regionais como os ataques a alvos iranianos na Síria. Por isso, não me parece ocasional que dois dos mais altos representantes político e militar tratem publicamente do assunto praticamente em sequência. 

Eisenkot, que deixou o cargo nesta semana depois de 40 anos de serviços militares, é conhecido pela discrição. Apesar de já ter abordado publicamente operações das Forças de Defesa de Israel (FDI) no passado, a entrevista ao New York Times soou como ato de despedida.

O caso de Benjamin Netanyahu é diferente. Mas também funciona como autoreconhecimento pela busca de segurança. Com a disputa eleitoral a pleno vapor, o primeiro-ministro novamente vem a público para garantir a competência de seu governo - e, mais do que isso, seu mérito pessoal, uma vez que também é o atual ministro da Defesa - na bandeira que se confunde com a sua própria biografia. 

Além disso, há também o fator da concorrência nas eleições de abril. Por enquanto, neste processo de reorganização política em curso, o Likud de Netanyahu continua liderando as pesquisas. 

No entanto, a intensa movimentação tem levado ao surgimento de novos nomes e partidos. Entre as novas legendas, a que por ora aparece como a segunda força é a Hossen LeIsrael (Resiliência para Israel), partido criado pelo ex-chefe de Estado Maior Benny Gantz. 

De acordo também com as pesquisas preliminares, o partido de Gantz pode obter entre 13 e 20 cadeiras no Knesset, o parlamento. 

Todo este movimento é fruto do desgaste sofrido pelo governo Netanyahu ao longo de 2018 em função, em primeiro lugar, dos sucessivos embates na fronteira entre Israel e Gaza e, no final do ano, da crise de mais de 400 mísseis lançados pelo Hamas sobre o território israelense.

Esses acontecimentos quase provocaram o colapso da coalizão de governo. Mas foram contornados pelo próprio Benjamin Netanyahu. No entanto, este é um processo ainda em curso, evidenciando a influência dos palestinos sobre a política doméstica israelense. 

Como escrevi, a pauta da segurança ocupa papel central na discussão política de Israel. 

E como o próprio primeiro-ministro ainda busca se recuperar da crise mais recente com o Hamas e do desgaste de confrontos semanais ao longo de quase um ano na fronteira com Gaza, os adversários políticos internos em Israel entendem que a segurança é o aspecto principal a ser objeto de contestação durante a disputa eleitoral.

Por causa disso tudo Netanyahu e sua base de sustentação correm para reafirmar publicamente - algo absolutamente raro - as medidas que vem sendo tomadas de forma a conter o ímpeto da oposição política doméstica.