Posições sobre a Venezuela e a nova diplomacia brasileira

22 de Janeiro de 2019
Por Henry Galsky Há uma divisão interna muito clara na Venezuela. Em 2015, o governo do país retirou os poderes do parlamento. Esse é um jogo perigoso que partiu a sociedade de maneira ainda mais profunda e está longe de ser solucionado.

Também há interesses internacionais, como de costume. A geopolítica latino-americana é pauta de discussão para muito além das fronteiras venezuelanas, até porque o regime bolivariano se tornou foco permanente de polarização.

A experiência iniciada por Hugo Chávez e encaminhada a seu sucessor Nicolas Maduro é objeto de uma série de sentimentos populares domésticos, externos e, claro, institucionais no mundo todo. Não é de hoje que a Venezuela é assunto de debate acalorado.

No Brasil não é diferente. Por aqui, se tornou munição trocada por militantes de esquerda e direita durante o processo eleitoral. E, como imaginava, o fascínio exercido pelo bolivarianismo permanece mesmo após a posse de Jair Bolsonaro.

Há no novo governo brasileiro um ímpeto evidente em aplicar toda a sorte de revisionismos. Dentre eles, a ideia de alterar em profundidade as alianças internacionais brasileiras e, para além disso, os próprios mecanismos e formas de atuação do Itamaraty.

Tudo isso não se resume apenas a movimentar a política externa do país para um lado diferente, mas aponta o caminho das atuais reformas de processos e diretrizes históricas que se sobrepõem ao cenário de choque entre a militância de Bolsonaro e a esquerda de forma mais ampla.

Assim, quando o chanceler Ernesto Araújo inicia um movimento regional de oposição formal ao governo venezuelano, é possível também ver ganhar corpo como política externa institucional a trajetória óbvia apontada por Bolsonaro durante o duro processo eleitoral.

Ao reconhecer a oposição a Maduro como a legítima representante do povo venezuelano, o Brasil inicia um esforço de aglutinação em torno de si das forças afinadas ideologicamente no continente.

E aqui há um ponto muito relevante nesta estratégia: o Itamaraty inicia um processo de construção de liderança ideológica cujos objetivos se estendem para além da América Latina.

Há um interesse cada vez mais manifesto de inserir o país no clube de países empenhados na construção de um eixo revisionista.

E aí basta puxar o fio de questionamentos que inclui desde o olhar liberal sobre comportamento, o aquecimento global, passando, claro, pela visão sobre imigração.

Portanto, a questão em torno da Venezuela carrega intrinsecamente a força aparentemente dada ao chanceler Araújo e ao novo Itamaraty. E o novo mandatário da diplomacia iniciou o movimento de transformação do modo de atuação internacional do país justamente pelo assunto que representa um dos principais focos de polarização da sociedade brasileira.

Araújo mostra a sua força no governo num mandato presidencial que pretende alterar a forma de expressão do país no mundo. Resta saber se será capaz de resistir às pressões internas – tanto do próprio corpo do Itamaraty quanto de figuras de alto escalão do governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão.