Na Venezuela, a geopolítica mundial se faz presente

31 de Janeiro de 2019
Por Henry Galsky É possível que este impasse na Venezuela adquira dimensões ainda maiores a ponto de se tornar – algo que já vem ocorrendo a cada novo movimento – o mais importante evento geopolítico latino-americano desde a Operação Condor, a troca de informações e ações conjuntas de repressão contra militantes de esquerda realizadas pelas ditaduras sul-americanas com apoio dos EUA. 

Há muitos fatores envolvidos na disputa em torno dos caminhos possíveis para resolver a situação; o primeiro deles, o mais óbvio e bastante repetido nas análises: a maior parte dos militares venezuelanos estão, até o momento, ao lado do presidente Nicolás Maduro. Isso quer dizer algo simples: para que deixe o Palácio Miraflores, alguém vai precisar ir até lá, enfrentando as forças armadas do país. 

Outro ponto importante: mesmo grandes manifestações de opositores com morte de civis não têm sensibilizado o presidente. Elas já ocorreram no passado e continuam a acontecer. Pode ser que algo mude, mas, por ora, Maduro não dá sinais de que irá flexibilizar posições em função de pressões internas. 

A divisão e as distintas fidelidades expostas no ambiente internacional em torno do impasse venezuelano apresentam também parte do novo cenário mundial. Apesar da memória de Guerra Fria, há também as investidas de um governo russo que se sente cada vez mais confortável em suas empreitadas internacionais. 

O presidente Vladimir Putin conseguiu obter muitas vitórias no Oriente Médio, tornando-se de fato o principal articulador e mandatário regional depois de intervir de forma bem-sucedida na manutenção de seu aliado Bashar Al-Assad na presidência síria. Também ocupou a Crimeia e, apesar de protestos da comunidade internacional – especialmente da Europa –, não houve formalmente quem se mostrasse disposto a enfrentar Moscou.

É esta Rússia cada vez mais empoderada que faz alertas aos EUA sobre eventual decisão americana de intervir na Venezuela. Lembrando sempre que, como citei no início do texto e nas análises anteriores, Washington sempre se sentiu à vontade para interceder na América Latina. 

Mesmo que a Casa Branca opte por seguir este caminho, o atual governo americano é liderado por um presidente que se elegeu com promessas de campanha que incluíam, entre outras, a redução do emprego dos impostos de seus cidadãos em ações internacionais. 

E, sempre é importante lembrar, este é um governo muito pouco interessado em confrontos diretos com os russos. Ainda há investigação em curso nos EUA sobre conluio e interferência de Moscou na campanha eleitoral que deu a vitória a Donald Trump. 

Depois da longa paralisação de parte dos serviços nos EUA – o chamado shutdown –, há novas suspeitas sobre o papel exercido pela Rússia nesta interrupção que durou um mês. 

Ou seja, uma guerra direta com os russos em nome da democracia venezuelana pode apresentar consequências ao governo Trump para além dos campos de batalha. 

Não quer dizer, claro, que esta opção esteja descartada, mas o corpo técnico, o presidente Trump e seus assessores próximos certamente vão levar todos esses elementos em consideração. 

O que pode precipitar um conflito é a crise em torno dos diplomatas americanos na Venezuela. Com a decisão de Maduro de cortar relações com Washington, os funcionários e cidadãos americanos no país ficam vulneráveis. Principalmente em função do ambiente de trocas de acusação e profunda desconfiança entre os dois países. 

Aliás, como ocorreu no Irã, em 1979, a embaixada dos EUA pode se tornar alvo da militância interna – neste caso, dos chavistas e até do próprio governo (este último improvável). Aí sim, se isso ocorrer, é admissível que Washington decida agir de forma mais contundente.