Os Protocolos dos Sábios de Sião

06 de Fevereiro de 2019
Por Henry Galsky Em 2004, escrevi um longo texto sobre Os Protocolos dos Sábios de Sião, a principal cartilha do antissemitismo mundial que até hoje é a fonte primária a partir da qual todas as teorias antissemitas se assentam e se atualizam. 

Como escrevi anteriormente, o ódio aos judeus se adapta e se modifica ao longo dos séculos. 

Assim, o crime ambiental em Brumadinho e a consequente chegada da equipe de resgate israelense acabaram por se transformar - para além da tragédia que se abateu sobre o país - num demonstrativo prático e intensivo da força de adaptação e velocidade do discurso antissemita. 

Mesmo depois da equipe de resgate de Israel deixar o Brasil (sem o nióbio brasileiro, sem ocupar o Brasil, sem iniciar o processo de intervenção na Venezuela), nada é capaz de aplacar o ódio. Ele se adapta. O antissemita não se importa com argumentos racionais. Antes de tudo, ele é um obcecado pelos judeus. 

Abaixo reproduzo o texto que escrevi e publiquei em 2004. Ele permanece atual:

Os Protocolos continuam vivos

Mesmo quem nunca ouviu falar do livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião" pode ter sido influenciado por seus ensinamentos. A obra - uma fraude criada pela polícia secreta do Czar Nicolau II e publicada pela primeira vez em 1897 - afirma existir uma conspiração judaica cujo objetivo secreto seria dominar o mundo. O livro baseia-se numa outra obra de ficção, publicada em 1864 pelo escritor francês Maurice Joly, que fantasia sobre uma conspiração para derrubar o regime de Napoleão III. 

Os Protocolos surgiram 33 anos após a publicação do livro assumidamente ficcional de Joly. A diferença sutil foi uma das responsáveis pelo assassinato de milhões de judeus ao longo do século XX: eles seriam os supostos conspiradores. O objetivo não seria apenas a derrubada de Napoleão III na França, mas a dominação de todo o planeta. 

O regime nazista utilizou-se da farsa para justificar o Holocausto. Até hoje, quase 60 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o livro ainda é citado por grupos políticos de direita e de esquerda e é sucesso editorial nos países muçulmanos. Levar o livro a sério nesses países é mais do que simples vontade popular; trata-se da posição oficial de governos como os do Irã, Líbano, Síria e Arábia Saudita. 

Mesmo no ocidente, Os Protocolos influenciam milhares de pessoas que veem nos judeus os culpados por sua miséria e desinformação. Muita gente crê que são os judeus que controlam as finanças internacionais, os governos dos grandes países e, é claro, a mídia. 

Essas mesmas pessoas ignoram o tamanho da população judaica: existem hoje em todo o mundo cerca de 14 milhões de judeus. Para se ter a noção exata do que este número representa, vale lembrar que há algo em torno de 2 bilhões de cristãos e 1,5 bilhão de muçulmanos. Somente no Brasil há cerca de 30 milhões de torcedores do Flamengo. 

A população judaica em todo o mundo corresponde a um quarto de um porcento de toda a população do planeta. Mas, mesmo assim, os seguidores dos Protocolos dos Sábios de Sião acreditam que existe uma conspiração judaica para dominar o mundo e que ela é eficiente (!). 

Esta teoria, além de simplista, mentirosa e ignorante, é contraditória, já que implicitamente qualifica como idiota toda o restante da população mundial. 

Imaginemos que de fato existisse uma conspiração de todos os judeus para dominar o mundo. Se realmente estivessem todos organizados e dispostos a levar a cabo tal plano, como os demais 99,75% de habitantes do planeta permitiriam que tal dominação fosse bem-sucedida? 

Outro ponto interessante é que o conteúdo do livro só concebe uma conspiração realizada por judeus. Portanto, somente os judeus devem ser alvo de desconfiança mundial. 

Imaginemos uma situação hipotética: há 45 Estados judeus no mundo e oito deles fazem parte de uma organização que determina o preço e a produção de uma matéria-prima essencial para o funcionamento da maior parte da tecnologia mundial. Isso seria o derradeiro sinal da grande conspiração judaica mundial? Os antissemitas provavelmente diriam que sim. 

Pois bem. Como se sabe, há apenas um Estado Judeu (Israel) e não 45, como no exemplo acima. Este número - 45 - corresponde, na verdade, à quantidade de Estados muçulmanos existentes hoje no planeta. E sim, há oito destes Estados muçulmanos que são membros de uma organização que controla a produção e exportação de uma matéria-prima fundamental para o funcionamento do planeta tal como o conhecemos hoje. 

A matéria-prima é o petróleo, e a organização refere-se aos países exportadores desta matéria-prima (OPEP). Ela tem sede em Viena, na Áustria, e seus países-membros (14 no total, dos quais oito são Estados Muçulmanos) reúnem-se periodicamente para definir o aumento ou a diminuição da produção de petróleo. 

Como todo brasileiro que possui automóvel ou anda de ônibus sabe, tais decisões afetam a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. E alguém é louco de afirmar que os muçulmanos dominam o planeta ou que existe uma conspiração para dominá-lo? Claro que não. A acusação só se aplica aos judeus, por mais escabrosa que ela pareça à luz de dados como os mostrados acima. 

Outro ponto importante na atualização das acusações aos judeus é a mídia. Os judeus também dominariam o setor, segundo os antissemitas, e, por isso, o mundo inteiro seria iludido por informações favoráveis aos judeus. Obviamente, os judeus não controlam todos os veículos da mídia. 

Mas, é claro, há algum judeu dono de algum órgão de comunicação em algum lugar. Afinal, até onde eu saiba, membros de qualquer religião, povo ou etnia podem fundar e administrar seus próprios negócios. Pelo menos nos países ocidentais. Na Jordânia, entretanto, a constituição afirma, por exemplo, que qualquer um pode ser cidadão jordaniano, exceto se for judeu. Mas ninguém toca no assunto, já que isso não incomoda nenhuma organização de direitos humanos ou de luta contra o preconceito. 

Mas, voltando à mídia, o empresário australiano Rupert Murdoch é considerado hoje o "barão" da mídia. É dono da News Corporation, presente em 133 países, que tem entre seus maiores destaques os jornais Time, de Londres, o New York Post, as redes de TV 24 horas Fox News e Sky News e o tabloide inglês The Sun. Murdoch não é judeu. E se fosse? Seria este o sinal "mais do que claro" da "grande conspiração judaica"? Murdoch é cristão. Então isso significa que há uma conspiração cristã para dominar o mundo? Por falar em Murdoch, é bom lembrar que parte da comunidade judaica decidiu realizar um boicote a grandes jornais norte-americanos como o próprio New York Post, Washington Post e Los Angeles Times devido ao que considera cobertura parcial e pró-palestina dos conflitos no Oriente Médio. 

Afirmar que existe uma conspiração judaica para dominar o planeta soa mais como desvio de caráter e antissemitismo do que como ingenuidade. Ignorar os fatos expostos é tomar partido numa campanha difamatória e antijudaica que, infelizmente, tem feito a cabeça de muita gente considerada inteligente e que, desde o início da segunda intifada palestina, em setembro de 2000, mostra ter voltado com toda a força. Através dela, os antissemitas tiveram a oportunidade de reeditar velhos preconceitos e apresentá-los aos que ainda não o conheciam. 

Os Protocolos continuam vivos e não se vê muita possibilidade de exterminá-los de vez, mesmo a partir de sentenças exemplares, como a que condenou no Brasil o editor de livros antissemitas Siegfried Ellwanger.