Crise na Venezuela: as conexões entre os múltiplos atores envolvidos

12 de Fevereiro de 2019
Por Henry Galsky Nos primeiros sete meses de 2018, a Venezuela exportou mais de 800 milhões de dólares em ouro à Turquia. Esta pode ser a ponta do fio de um novelo cujo destino pode vir a ser conectado a uma das posições mais firmes do atual governo americano: as sanções aplicadas ao Irã em virtude de seu programa nuclear. 

Esta é apenas uma possibilidade. No entanto, não seria inédita. A Turquia já foi acusada pelos EUA de negociar em ouro de forma a driblar as sanções impostas ao regime iraniano. 

As autoridades americanas já monitoram a situação. Aqui reside mais um aspecto capaz de aumentar os pontos de atrito entre Washington e Caracas. O que pode levar o presidente Trump a tomar decisões mais drásticas diante do impasse atual. 

As guerras formais entre países - cada vez mais raras nos dias de hoje - ocorrem justamente quando se esgotam as possibilidades de diálogo (exceção feita às invasões para tomada de território). 

O caso venezuelano obedece exatamente aos parâmetros teóricos mais convencionais. A comunidade internacional se divide em dois grupos com interesses distintos e opostos: os que querem a continuidade de Maduro e os que pretendem pressionar até que ele deixe o comando do governo. 

A questão é mais complexa em virtude, obviamente, da forma de atuação e das alianças formadas pelos atores mais relevantes envolvidos neste jogo. 

O caso turco ilustra algumas das dinâmicas contemporâneas que, ao contrário do que se pode concluir num primeiro momento, apresentam camadas de interpretação nada binárias. 

A Turquia é membro da Otan (a aliança militar Ocidental), onde, portanto, é sócia dos EUA. No entanto, seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, optou por investir na aproximação com adversários tradicionais dos americanos, como China, Rússia e Irã. Mas na guerra civil síria, a posição do país é de oposição ao ditador Bashar al-Assad, sustentado no cargo justamente por Rússia e Irã (além de milícias xiitas que lutam ao lado de membros do grupo terrorista libanês Hezbollah).

Na Síria, a Turquia ainda apoia as forças militares de oposição a Assad. Ou seja, as implicações de uma aliança entre os regimes turco e venezuelano certamente esbarram nos interesses de Washington no Oriente Médio. 

Assim, mesmo diante de uma situação de distância geográfica real, as decisões e consequentes ações dos países que estão no centro do jogo de poder internacional obedecem a uma visão macro de política, uma vez que as disputas são sempre globais. 

Mesmo a ideia de intervenção americana na Venezuela não deve ser interpretada como ato isolado. E aí não apenas pelas conexões apresentadas acima, mas também porque poderia comprometer outros aspectos da política externa de Washington.

Em 2019, a Venezuela ocupa a presidência rotativa da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Isso significa, na prática, que o presidente da companhia estatal PDVSA, Manuel Quevedo - que também é o atual ministro do Petróleo no governo Maduro -, é o presidente da OPEP. 

Daí a conclusão é óbvia: eventual intervenção - ou mesmo sanções - na Venezuela significaria na prática excluir do mercado fornecedor de petróleo dois grandes produtores, uma vez que os EUA já aplicam sanções ao Irã. E aí o mundo inteiro pode sofrer as consequências. Inclusive os americanos.

A realidade impõe, portanto, a lógica do cobertor curto. É possível pressionar Caracas. Mas até certo ponto. Do contrário, a crise venezuelana pode se desdobrar numa série de outros grandes problemas com consequências imprevisíveis.