Venezuela e EUA: os dois lados da disputa pelo discurso

26 de Fevereiro de 2019
Por Henry Galsky É claro que a ambiguidade e a polarização interessam muitíssimo ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Tanto que no sábado, 23 de fevereiro, discursou a apoiadores num púlpito decorado com os dizeres em inglês "hands off Venezuela" (“tirem as mãos da Venezuela”). 

Há dois planos em curso: a ideia de intervenção estrangeira a partir de demandas opostas. A noção de que os EUA preparam a invasão ao país sul-americano atende aos anseios de algumas figuras do partido Republicano interessadas no apoio dos exilados venezuelanos e da grande comunidade latina estabelecida em território americano. 

Por outro lado, ao próprio Maduro dar publicidade ao plano de invasão se transforma em alternativa de sobrevivência política. Talvez até já imaginando a possibilidade de, diante de necessidade de deixar o cargo, encontrar uma forma de atuação até mesmo em eventual exílio. 

Existe na América Latina um temor sobre intervenções americanas. Esta não é de nenhuma maneira uma fantasia infundada. Os EUA possuem histórico de alianças com governos ditatoriais locais e intervenções diretas no continente. Desta maneira, apelar à memória coletiva a respeito da atuação de Washington é sempre uma estratégia política à disposição. 

Num cenário como o atual – e, no caso da Venezuela, de um governo com longo registro de oposição aos EUA – lançar no lago a pedra da intervenção americana se ajusta com perfeição na busca por apoio doméstico e externo. 

Governos e figuras populares já se posicionaram. Maduro pretende ganhar tempo ao mudar o foco da discussão; no lugar de questionar os resultados factuais e o fracasso de um regime a cada dia menos democrático, o debate passou a ser, naturalmente, sobre a defesa da soberania nacional venezuelana diante do planejamento militar americano. 

A Casa Branca também aprofunda narrativa da intervenção e subida no tom já mirando as eleições presidenciais do ano que vem. O governo Trump representou o ponto mais profundo de divisão da sociedade americana no século 21. Esta situação reflete os discursos, ideias, planos e comunicação do presidente. E se espalhou pelo espectro político doméstico. 

Hoje, há representantes eleitos no Congresso que ganharam força graças ao modo de atuação de Donald Trump. E aqui me refiro a congressistas de oposição. O presidente americano contribuiu intensamente para o surgimento de figuras que se opõem a ele e a seu modo de fazer política. 

E a Venezuela vai passar a ser mais um fator polarizador durante a próxima campanha presidencial americana. A estratégia de Trump, assim como foi a estratégia de Bolsonaro por aqui, vai procurar vincular todo o partido Democrata – em especial os autointitulados socialistas, como o senador e possível candidato à presidência Bernie Sanders – ao regime venezuelano e aos resultados catastróficos de 20 anos de chavismo.