A polarização da disputa eleitoral em Israel

12 de Março de 2019
Por Henry Galsky A chapa Azul e Branco (que reúne sob a mesma candidatura Benny Gantz e Yair Lapid) tem agenda própria quando o assunto é o contexto regional, o a que inclui as complexas relações com os palestinos, os vizinhos árabes com os quais Israel ainda não possui acordos diplomáticos ou mesmo reconhecimento mútuo e as perspectivas de paz no Oriente Médio. 

De forma ampla e sem entrar em detalhamento, o projeto da chapa menciona oposição a retiradas unilaterais por parte de Israel - como as promovidas no passado no sul do Líbano e em Gaza -, mas apoia a separação física em relação aos territórios reivindicados pelos palestinos moderados para a constituição de seu estado. 

A chapa também é favorável à realização de conferências de paz conjuntas incluindo a participação de parceiros árabes. Mesmo os que não possuem acordos ou relações com o Estado judeu. 

Ainda segundo a plataforma de campanha, Jerusalém permaneceria unida e com seu status atual de capital israelense. O país também manteria os principais blocos de assentamentos judaicos na Cisjordânia. Nada disso constitui novidade, na medida em que este é o desenho amplo já existente nos planos de paz que preveem dois estados para dois povos. 

Gantz prometeu que, se assumir a liderança do país, irá aumentar o número de residentes nas Colinas de Golan de forma a deixar claro que Israel não está disposto a abrir mão do território conquistado da Síria durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. 

É uma agenda notadamente de esquerda - quando observada ainda de forma ampla, como escrevi, e se diferencia das posições de Netanyahu. Este era quadro amplo imaginado pelos americanos desde os Acordos de Oslo até o governo Obama. E em boa medida esta posição causou ainda mais desgastes na problemática interação entre o ex-presidente e Benjamin Netanyahu.  

Muito embora a Azul e Branco não se assuma abertamente como partido de esquerda, a campanha eleitoral está colocando a legenda neste lugar. Até porque Netanyahu já está dando conta disso. O atual primeiro-ministro tem construído sua propaganda política a partir da repetição de slogans associando Benny Gantz e Yair Lapid à esquerda. 

A polarização mundial que vem se manifestando em muitas campanhas ao redor do mundo está presente em Israel, uma sociedade com histórico de profundas divisões internas, mas com um sistema político que exige alguma forma mínima de entendimento entre seus partidos de forma a possibilitar a formação do novo governo. 

É importante sempre ter em mente que conceitos de esquerda e direita são mutáveis e dependem das realidades locais. A forma como se imagina a esquerda no Brasil é distinta da maneira como a esquerda se manifesta em Israel. Também é diferente da forma como a direita de Israel pensa a sua oposição. E até a forma como a própria direita atua. 

Por exemplo, nos exercícios matemáticos anteriores às eleições, o bloco comandando pelo Azul e Branco - líder nas pesquisas - é colocado sempre ao lado dos partidos árabes. Apesar de esses partidos árabes não possuírem agenda claramente de esquerda.

E, ainda mais importante, a informação de que as legendas partidárias árabes não costumam historicamente aderir a qualquer coalizão governamental israelense. Sejam essas coalizões de esquerda ou direita. 

Ao mesmo tempo, a própria chapa Azul e Branco é liberal do ponto de vista econômico. Mesmo que entre seus membros esteja o líder sindical Avi Nissenkorn, presidente da Histadrut, a Organização Geral dos Trabalhadores de Israel.

Na prática, ainda é difícil entender como a chapa Azul e Branco se encaixa e se diferencia dos demais partidos. O único ponto bastante claro é que hoje ela existe a partir da união de adversários cujo foco principal é a oposição ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. 

Talvez, depois das eleições de abril, caso não consiga formar a coalizão de governo, o Azul e Branco venha a ser mais um dos muitos partidos que surgem e desaparecem com a mesma velocidade do espectro político israelense.