Um ano após o início das manifestações em Gaza

19 de Março de 2019
Por Henry Galsky Se a situação no conflito entre israelenses e palestinos parecia adormecida até o episódio dos mísseis sobre Tel Aviv, vale dizer que o próximo dia 30 marca um ano desde que o Hamas passou a organizar as manifestações na fronteira entre Gaza e Israel. É muito provável que a data seja lembrada com novos protestos violentos. 

Em função disso, mediadores egípcios têm tentado alcançar um cessar-fogo de longa duração entre as partes. É importante resgatar o histórico de acontecimentos, até porque as manifestações foram de grande utilidade ao Hamas, o grupo terrorista que detém o controle de fato da Faixa de Gaza. 

Em março do ano passado, o Hamas deu novo uso a uma manifestação anual na fronteira de Gaza com Israel para promover a chamada “Grande Marcha do Retorno”. Ao contrário de eventos similares em anos anteriores, a partir de 2018 houve adesão significativa. A primeira sexta-feira de protestos reuniu mais de 30 mil pessoas nas proximidades da cerca que separa Gaza de Israel.

Isolado no mundo árabe – em virtude de sua associação ao eixo xiita regional não-árabe –, o grupo terrorista palestino rapidamente obteve sucesso a partir da ação. Depois de praticamente quatro anos fora da pauta principal das discussões, Gaza retomou seu protagonismo perdido.

Durante as manifestações na fronteira, o chefe do Hamas, Yahya Sinwar, fez questão de repetir os objetivos do grupo:

“A Marcha do Retorno vai continuar até removermos esta fronteira temporária. Nosso povo não pode desistir de uma polegada sequer da terra da Palestina. Vamos comer seus fígados (dos israelenses)”, disse.

Quando Yahya Sinwar faz uso do termo Palestina ele não se refere a Gaza e Cisjordânia (territórios que os acordos internacionais assinados – inclusive pela Autoridade Palestina – deixam claro que servirão de base para a criação de um futuro estado palestino). Sinwar se refere ao território integral entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – Israel, portanto.

Assim, a chamada "Grande Marcha do Retorno" é mais um episódio em que o Hamas reafirma a própria agenda: não se trata de buscar apenas a criação de um estado palestino, mas de sustentar a ideia de destruição de Israel. 

Por mais que o grupo saiba das impossibilidades de tornar este objetivo prático, as manifestações reforçam a bandeira original do Hamas. 

Neste momento - e enquanto o grupo faz elogios à própria natureza - o impasse permanece. Inclusive reforça o discurso de setores da política israelense que defendem a impossibilidade de diálogo com os palestinos de forma ampla. 

Às vésperas das eleições israelenses, a "Grande Marcha do Retorno" pode aprofundar ainda mais os impasses num cenário já bastante desgastado.