Sobre Bolsonaro, Trump e a política externa brasileira

22 de Março de 2019
Por Henry Galsky
É claro que a visita de Bolsonaro a Trump obteve a cobertura devida por parte da imprensa. E, como de costume desde que as redes sociais passaram a protagonizar a experiência humana, o encontro resultou num grande e por (muitas) vezes desinteressante debate virtual. Cada lado busca apresentar argumentos para "lacrar" os adversários. 

Como este espaço se pretende a analisar cenários e fazer comparações, escrevo para pontuar algumas observações.

A campanha, a agenda, a personalidade e o discurso do atual presidente brasileiro são motivados pela aversão aos governos anteriores. E aqui não me refiro apenas aos ex-presidentes Lula e Dilma, mas à própria natureza da política tradicional. 

Bolsonaro põe em prática parte daquilo que prometeu na campanha, o rompimento com o modo de operação conhecido. Assim, a política externa passa a ser um aspecto muito visível desta forma de atuação. 

Até porque, mesmo com diferenças práticas e evidentes entre PT e PSDB, o Itamaraty se manteve como uma espécie de zona neutra, o guardião da tradição e da coerência em torno do discurso e das ações da política externa brasileira. 

Reforçando apenas que havia diferenças, claro, entre as distintas maneiras de abordagem internacional entre os partidos e suas lideranças. Por isso os resultados obtidos foram também muito diferentes. 

Lula e Fernando Henrique Cardoso foram presidentes interessados em política internacional. Dilma Rousseff, menos. Mas o ponto é que todos incluíram e faziam a devida reverência ao Itamaraty, a suas tradições e a seu papel em torno do conhecimento e prática das decisões internacionais do país. 

Bolsonaro é o oposto. Mas, mesmo ao expor o óbvio - o fato de esta conclusão não poder ser considerada surpreendente -, é preciso deixar igualmente claro que o produto de seu trabalho certamente será distinto ao obtido até hoje. 

E aqui não se trata de especulação, mas do entendimento de que há neste momento a pavimentação de um novo caminho que passa pelo desmonte (repito, anunciado diversas vezes) da tradição internacional brasileira, especialmente das alianças e dos resultados conquistados por Lula.

Bolsonaro repete no Brasil o mantra que Trump adotou nos EUA. A ordem internacional do atual presidente americano obrigatoriamente elege como alvo a desconstrução das prioridades estabelecidas por Barack Obama. 

Esta afirmação é especialmente válida em relação às duas principais conquistas no campo externo obtidas pelo ex-presidente americano: a aproximação e distensão com Cuba e a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano. 

De maneira hiperbólica, esta é a tendência que passou a ser aplicada ao Brasil depois da eleição de seu novo presidente. A gestão da política externa é um dos pilares deste modelo em curso. Em breve, publicarei um texto dedicado a apresentar o que exatamente está em jogo neste processo.