O Irã acelera para influenciar as eleições em Israel

28 de Março de 2019
Por Henry Galsky Legenda: Em Gaza, um outdoor com as bandeiras nacionais iraniana e palestina onde se lê "obrigado e gratidão ao Irã"


Há cenários regionais mais amplos na crise atual entre Israel e o Hamas. Na verdade, há dois caminhos distintis de interpretação. Um deles passa, naturalmente, pela proximidade das eleições israelenses. O outro, pela ambição estratégica do Irã. 

Começo pelo Irã; não é segredo que os iranianos pretendem ampliar sua participação no Oriente Médio. O resultado de anos de atuação política e militar culminaria com a transformação definitiva do país na potência hegemônica regional, assunto que já abordei inúmeras vezes por aqui. 

A rota da poder que liga livremente Teerã ao Mediterrâneo já existe, e a conexão do país aos principais acontecimentos da região é até bastante óbvia: os militares e a cúpula política do Irã estão presentes na sustentação do regime de Bashar al-Assad na Síria, no repasse de dinheiro e armamento ao Hezbollah no Líbano, no financiamento da luta da milícia houthi no Iêmen contra a Arábia Saudita e no repasse de armas e recursos financeiros a Gaza. 

É neste ponto que o foco iraniano se divide. De um lado, o apoio de Teerã ao Hamas. De outro, o financiamento à Jihad Islâmica Palestina (PIJ, em inglês), grupo dedicado exclusivamente ao objetivo de destruir Israel e que, apesar de sunita (assim como os demais palestinos mulçumanos), tem como inspiração fundamental os ideais da Revolução Islâmica Iraniana de 1979. Ao contrário de outros grupos palestinos, a PIJ não toma parte no processo político. 

Para deixar ainda mais claro: Hamas e PIJ não pretendem igualmente criar um estado palestino ao lado de Israel. Ambos mantêm a agenda de destruição do Estado judeu. No entanto, a PIJ, diferentemente do Hamas, não participa do processo político interno palestino. 

O míssil que atingiu Mishmeret, na região central de Israel, pode ter sido lançado a partir de ordem iraniana. Esta informação tem sido confirmada por oficiais palestinos e egípcios de alto escalão. 

Se isso for verdade, a interferência iraniana atingiria seu ponto máximo em Israel, principalmente se for capaz de influenciar o processo eleitoral e provocar a derrota de seu principal inimigo público na região, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. 

Isso porque há enorme pressão política interna sobre Netanyahu (e este é o aspecto que prometi abordar no início deste texto). Para além das investigações em curso sobre sua atuação política, há grande insatisfação popular, especialmente por parte dos cidadãos do sul do país, região mais afetada pelos mísseis lançados de Gaza. 

Em novembro do ano passado, a situação chegou ao ponto mais grave quando o Hamas lançou 400 mísseis sobre Israel numa única noite. A escalada quase resultou num conflito aberto, mas foi contida. No entanto, deixou feridas abertas, chegando quase a derrubar o governo de Israel e levando Netanyahu a antecipar para o próximo dia nove eleições previstas oficialmente para serem realizadas em novembro. 

Agora, desde que dois mísseis foram lançados sobre Tel Aviv no dia 14 de março, o discurso em Gaza parece ter mudado. 

A posição do Hamas é de que teria ocorrido erro de manejo nos dois eventos (no dia 14 e nesta última segunda-feira, dia 25), resultando, "por engano", em lançamentos destinados justamente ao centro de Israel, a região mais densamente habitada do país. Dois eventos iguais num intervalo de 12 dias. 

Cada lançamento e cada nova rodada de confronto entre Israel e o Hamas em Gaza passaram a expor Netanyahu, cuja principal bandeira política é a defesa. 

Se a PIJ estiver realmente em ação por ordem de Teerã, o quadro fica ainda mais complexo. Se o primeiro-ministro conseguiu chegar a negociar com o Hamas mesmo que de forma indireta, agora precisará resolver o problema em Gaza e aplacar seu principal inimigo regional de uma só vez. E a resposta precisa vir rapidamente a ponto de o eleitorado reconhecê-la e lhe dar mais um voto de confiança no dia 9 de abril. 

Talvez justamente por isso aviões israelenses tenham novamente atacado depósitos de armamento do Irã em Alepo, no norte da Síria. Pode não ter ocorrido um anúncio formal, mas Israel já atua defensivamente em duas frentes.