Bolsonaro em Israel ajuda o candidato Netanyahu

01 de Abril de 2019
Por Henry Galsky Há alguns pontos muito claros a se verificar na aproximação entre Brasil e Israel. O primeiro deles diz respeito aos distintos objetivos que a parceria representa a seus líderes. 

No dia 9 de abril, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu passa possivelmente pelo teste mais difícil em sua longa trajetória política: em meio a investigações sobre sua conduta e diante da ascensão de um opositor que conhece sua principal pauta de maneira incontestável, precisa obter forças, votos e aliados de forma a construir nova coalizão de partidos capaz de costurar maioria e governabilidade. Este é um aspecto. Mas não apenas isso. 

Do lado de Bolsonaro, o líder brasileiro cumpre a promessa apresentada em campanha: a realização de um processo rápido de realinhamento internacional. No lugar dos tradicionais parceiros dos governos Lula e Dilma (mais de Lula do que de Dilma, vale dizer), o retorno ao eixo ocidental e do hemisfério norte com foco especial nos EUA. E isso se estende a Israel. Já explico. 

Quando Trump anunciou a transferência da embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém, o presidente dos EUA pretendia reforçar laços também com o público interno, em especial com o grande eleitorado evangélico que lhe concedeu apoio durante a campanha e que também representa parte significativa da sustentação do partido Republicano. 

Escrevi bastante sobre o assunto na época, inclusive detalhei os anseios religiosos que compõem o aparato teórico de parte do eleitorado evangélico em relação a Israel e aos conflitos do Oriente Médio. Nao é possível analisar as decisões políticas americanas a respeito deste assunto (especialmente durante o governo Trump) sem levar essas questões em consideração. 

No Brasil, a chegada de Bolsonaro à presidência introduziu esta pauta ao escopo de política externa nacional. É claro que há diferenças entre o peso religioso e seu tempo de atuação nos EUA e aqui, mas há similaridades entre essas agendas. É curioso notar, por exemplo, que em seu discurso na cerimônia de recepção no aeroporto em Tel Aviv Bolsonaro tenha citado o apóstolo João, do Novo Testamento. Também creditou à fé - não ao trabalho e ao amplo investimento em educação e pesquisa realizado por sucessivos governos israelenses - os resultados positivos de Israel (hoje, um país com índices de primeiro mundo). 

É impossível negar o olhar religioso neste momento de novas relações entre os dois países. Mais no sentido do governo brasileiro em relação a Israel do que o contrário. 

É evidente que tudo isso também encontra aderência ao objetivo muito claro de reafirmar oposição entre o governo atual e os dois presidentes do PT, principalmente Lula, liderança e símbolo do partido e também articulador dos passos mais relevantes da política externa brasileira neste século, como a criação do BRICS, da Unasur e do até então inédito acordo sobre o programa nuclear iraniano, em 2010. Tudo isso está permanentemente no foco do presidente Jair Bolsonaro. 

Do lado de Netanyahu, como também já escrevi, há um esforço em apresentar resultados no propósitos de ampliação das alianças internacionais do país.

Depois de 15 anos de governos brasileiros que votaram sucessivamente contra Israel nos organismos multilaterais (inclusive o governo Temer, importante ressaltar), existe a possibilidade de mudança. E, ao contrário da grande energia que Netanyahu precisa despender de forma a abrir portas pesadas e resistentes principalmente no Oriente Médio, a relação com o Brasil não exigiu empenho de grandes esforços. Era um caminho que não estava mapeado até a campanha eleitoral e a ascensão da candidatura Bolsonaro.

Além disso, o Brasil é liderança regional incontestável por suas dimensões, população e grande economia. E, ainda melhor, é um ator do jogo internacional que mantém relações diplomáticas com todos os países do mundo. 

E Bolsonaro viaja a Israel no melhor momento possível para o primeiro-ministro: reforça as conquistas internacionais do atual governo e divide a pauta da imprensa israelense justamente na semana que antecede as eleições.