Netanyahu comemora. Mas grandes problemas o aguardam

10 de Abril de 2019
Por Henry Galsky A vitória de Benjamin Netanyahu não é exatamente uma surpresa. No entanto, alguns fatores que compõem os resultados podem ser considerados surpreendentes. 

O primeiro aspecto diz respeito aos erros ou imprecisões das pesquisas. Seguidos levantamentos apontavam para a ascensão do Avodá, o partido Trabalhista. Houve pesquisas mostrando que a histórica legenda israelense crescia até 100% em relação aos índices anteriores, podendo subir de sete a 14 cadeiras. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário. 

As eleições de 2019 deram aos Trabalhistas o pior resultado em 71 anos, reduzindo sua participação no Knesset, o parlamento, a apenas seis cadeiras. 

Este processo eleitoral termina com uma vitória a Netanyahu, uma conquista que parece ampla, mas cuja interpretação não é tão óbvia ou simplória. 

O primeiro ponto diz respeito ao desgaste sofrido pelo primeiro-ministro. Em meio a acusações e a um processo ainda em curso envolvendo fraude, quebra de confiança e suborno, os adversários usaram todo este arsenal para expor Netanyahu. E de certa maneira a estratégia funcionou. Benny Gantz, o líder do Kahol Lavan (Azul e Branco), obteve grande resposta nas urnas. Ainda mais levando-se em consideração sua inexperiência política. 

Para conter esta onda - e as pesquisas mais ao final da campanha tiraram a confiança de Netanyahu - foi preciso fazer "promessas" ao setor político representativo da ultraortodoxia judaica. Netanyahu esticou a corda ao máximo quando levantou a possibilidade de anexar blocos de assentamentos na Cisjordânia. 

E aqui está o segundo ponto. A pulverização e a divisão habituais no cenário político de Israel apresentam agora elementos pouco comuns, como o fortalecimento do bloco político ortodoxo. Este é um item muito importante, principalmente diante da possibilidade de o governo Trump apresentar seu "Acordo do Século". 

Netanyahu solicitou ao presidente americano que divulgasse seu plano de paz apenas após as eleições israelenses. De acordo com o Canal 13 de Israel, a expectativa é de que a Casa Branca apresente o projeto em meados de junho. 

E temos neste aspecto alguns dados a se considerar: a Autoridade Palestina (AP) se recusa a negociar com a equipe americana desde que os EUA anunciaram a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém; pelo próprio resultado eleitoral, Netanyahu sustentará seu governo a partir de uma base formada por partidos ortodoxos - que certamente não estarão disponíveis ou interessados em fazer concessões territoriais. 

Mas algum caminho Netanyahu precisará encontrar. 

O plano de paz americano é o projeto mais ambicioso do governo Trump. Lembrando o que sempre escrevo, o presidente americano tem como foco o seu antecessor. E o conflito entre israelenses e palestinos permaneceu como o objetivo não alcançado por Barack Obama. O sucesso aqui vale muito mais que os dois principais resultados internacionais obtidos pelo presidente Democrata: o acordo sobre o programa nuclear iraniano e a aproximação com Cuba. 

Estas são as peças do jogo que deverão ser encaixadas de alguma maneira; a indisponibilidade da AP, a base da nova coalizão de Netanyahu, e o interesse real de Trump de ser bem sucedido onde Obama não foi. 

Apesar da vitória, os próximos meses não deverão ser muito fáceis ao primeiro-ministro israelense. E vale lembrar que, em meio a tudo isso, Netanyahu ainda será ouvido como parte do processo que investiga seus atos anteriores.