As mudanças dos caminhos internacionais brasileiros - parte II: Bolsonaro

17 de Abril de 2019
Por Henry Galsky Publiquei por aqui um texto introdutório no último dia 4 de abril mostrando conceitualmente o caminho percorrido entre os distintos pensamentos e práticas das opções internacionais de Lula e Bolsonaro. Agora, a ideia é apresentar as diferenças do mundo real no que concerne a estratégias e resultados. Este texto é dedicado ao exame das escolhas do governo Bolsonaro até aqui.

Antes de mais nada, é importante dizer que, depois de pouco mais de cem dias de governo, é possível fazer uma leitura apenas parcial das motivações e intenções de Bolsonaro. Seus resultados virão, positivos ou negativos, mais adiante. 

Por ora, como tenho escrito, o caminho de Bolsonaro é o da desconstrução e do realinhamento. Mais além disso, é possível perceber também que suas decisões estão estruturadas sobre bases pouco tradicionais também para os padrões brasileiros. 

A academia guardiã da política externa brasileira, o Itamaraty (instituição formadora de gerações de diplomatas e atuante na pesquisa e construção da diplomacia), tem sido desprivilegiada, movimento bastante coerente com diretrizes de um governo marcado pela desvalorização da chamada intelectualidade, das instituições de pesquisa e, naturalmente, da própria academia. 

Numa trajetória que se prolonga desde sua ascensão como candidato, Bolsonaro é visto como alguém de fora dos círculos tradicionais de formação das lideranças políticas e, principalmente, das escolhas tradicionais. 

Não é Lula, que nasce a partir da militância sindical e da estruturação do Partido dos Trabalhadores; mas tampouco é Fernando Henrique, oriundo da mesma academia e círculo intelectual que Bolsonaro, sua militância e sua base política desprezam. Essas constatações também ajudam a explicar as opções internacionais deste presidente. 

Para o ministério das Relações Exteriores, a escolha de Ernesto Araújo, diplomata rejeitado pelos círculos de poder do Itamaraty; como inspiração intelectual, Olavo de Carvalho, escritor e filósofo avesso à academia e rejeitado por ela. Na base do apoio e das diretrizes, a militância evangélica, ela mesma igualmente - em boa medida - distante dos círculos acadêmicos e intelectuais estabelecidos.

É desta fusão que nasce, entre outros, a nova política internacional brasileira. Importante reafirmar o que venho escrevendo por aqui: nasce como resposta e rejeição aos caminhos tradicionais. E este é um aspecto relevante, uma vez que, apesar de egresso do baixo escalão da mais cotidiana política do Congresso, Bolsonaro é símbolo e agregador de diversas camadas de rejeitados em distintos espaços da sociedade brasileira. É, portanto, um governo dos marginais - no sentido mais básico do termo, o que designa aqueles à margem. 

E, desta maneira, este segmento que agora se encontra no poder parte para reivindicar voz e fazer sua leitura da sociedade. Inclusive na política externa. Assim, enxerga (com alguma razão, vale dizer) em Donald Trump alguém que possui as mesmas características, uma liderança de fora dos círculos e da formação política tradicional dos EUA. Foi com este discurso e narrativa de campanha que o presidente americano encontrou eco entre camada significativa da sociedade do país - um grupo que, nas análises que fiz ao longo da campanha eleitoral americana, ilustrei tomando como exemplo os carvoeiros do Tennessee. 

A política externa de Bolsonaro mira em Trump como estratégia óbvia. O encontro dos rejeitados. Muito embora não pareça levar em consideração as muitas diferenças e, naturalmente, os objetivos distintos das duas administrações.

Por enquanto, o propósito do presidente brasileiro parece se restringir tão somente a se reafirmar como o novo parceiro disponível de Washington na América Latina, talvez de forma a se apresentar como opção ao México, agora liderado pelo presidente de esquerda Andrés Manuel López Obrador. Mesmo que este seja o objetivo, ainda é muito pouco para o Brasil.