A pressão aumenta na Venezuela

02 de Maio de 2019
Por Henry Galsky O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, foi o porta-voz oficial da posição norte-americana em relação à Venezuela: "Esta é sua última chance. Aceitem a anistia do presidente interino Guaidó, removam Maduro e então tiraremos vocês (a Venezuela) da lista de sanções. Fiquem com Maduro e afundem no mesmo barco", disse. 

Há sinalizações importantes a partir desta declaração - mais tarde acompanhada por um tweet do presidente Donald Trump num tom mais leve em que dizia estar ao lado da liberdade do povo venezuelano. 

O primeiro aspecto diz respeito às intenções dos EUA. Além da declaração de posicionamento ao lado de Guaidó, John Bolton disse também que há diálogo em curso entre a administração norte-americana e três membros do alto escalão do governo Maduro de forma a operacionalizar a transferência de poder para suavizar o máximo possível este processo de transição. 

Mas nada disso se materializou até agora. Há rumores de que Maduro estaria disposto a exilar-se em Cuba, mas num ambiente repleto de informações desencontradas e de pouco acesso a meios de verificação é difícil fazer afirmações. É complicado prever cenários de desfecho nestas circunstâncias. 

O que se sabe é que há duas forças importantes de pressão em atuação. Os EUA - que como escrevi no início deste texto abriram o jogo parcialmente sobre a forma como atuam - e a Rússia, maior aliada de Maduro, seu principal credor e agente externo mais empenhado na manutenção do regime. Há rumores de que teria sido o governo de Moscou o responsável por impedir a concretização do plano de exílio. 

Em tempos de informações falsas cada vez mais influentes, a própria ideia de que os militares teriam aderido à oposição venezuelana ainda não teve comprovação prática. Este é certamente o fator decisivo do jogo. 

É evidente que a situação da Venezuela é a cada dia mais insustentável. E se há alguma certeza no meio disso tudo é que a pressão aumentou para que novos acontecimentos sejam capazes de destravar o impasse. 

Por um lado, temos o discurso norte-americano em modificação. A Casa Branca mudou suas perspectivas abertamente. Não basta apoiar Guaidó, como muitos países europeus e o próprio Grupo de Lima têm feito. Quando John Bolton declara estar em contato com membros do governo Maduro para negociar a transição está também aberta a forma de atuação dos EUA. No entanto, é importante que se diga: é muito improvável que esta pressão se transforme em operação militar para mudar o regime de Caracas. 

Há algumas razões para isso: as últimas empreitadas internacionais dos EUA foram dispendiosas e custaram também milhares de vidas de militares norte-americanos. 

E não apenas isso: há decisões que resultaram em feridas geopolíticas que ainda não se fecharam, casos de Iraque, Afeganistão e Líbia. Na Síria - onde vale dizer Rússia e EUA combatem o Estado Islâmico por caminhos distintos - os norte-americanos relutaram em assumir posição mais assertiva também graças a esta mesma memória recente. 

Além disso, Donald Trump venceu as eleições presidenciais prometendo redução de gastos de impostos pagos pelos cidadãos do país em intervenções internacionais. Essa era uma de suas mais agudas críticas ao antecessor Barack Obama. 

No entanto, no ano que antecede nova corrida eleitoral, é possível que a administração Trump esteja mirando o considerável contingente de latinos que votam nos EUA - em especial no importante e sempre decisivo estado da Flórida. Isso explica em parte o aumento da pressão sobre Maduro. 

Tudo isso pode se traduzir em sanções e na intensificação dos discursos públicos. Sejam eles realizados pessoalmente, como fez John Bolton, sejam eles realizados no Twitter, como costuma fazer Donald Trump. Mas, como tenho escrito, é improvável que o caminho militar seja de fato uma opção considerada.