A disputa entre EUA e Irã nas águas do Golfo

16 de Maio de 2019
Por Henry Galsky Apesar de a decisão norte-americana de enviar o porta aviões USS Abraham Lincoln e uma unidade de bombardeiros ao Oriente Médio coincidir com a escalada recente entre israelenses e palestinos, há informações não confirmadas de que o foco do temor não está nas ações que partem de Gaza. 

De acordo com a fonte ouvida pela rede de notícias CNN, haveria possibilidade de o governo do Irã ou seus aliados não estatais alvejarem forças dos EUA marítimas e terrestres baseadas na região. 

Talvez este temor faça mais sentido agora depois que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos relataram atos de sabotagem contra seis de seus navios petroleiros. Ambos os países são aliados próximos dos EUA na região. Ao mesmo tempo, são duas monarquias sunitas que se contrapõem ao Irã e, acima de tudo, aos planos de expansão regional do país. 

Tenho escrito com alguma frequência sobre a movimentação iraniana em Gaza. O conflito recente deixou claro que o grupo diretamente financiado pelo Irã (e que inclusive pretende replicar o modelo de regime de Teerã no território palestino, a Jihad Islâmica) passou a disputar protagonismo local com o Hamas. 

Mas não é possível restringir a atuação do regime iraniano a Gaza. O ponto fundamental é que a cada dia as autoridades da República Islâmica se sentem mais pressionadas pelo governo norte-americano. Há sucessivas medidas em curso cujos propósitos parecem ser mesmo provocar a derrota final do regime. 

E este é o aspecto mais complicado. É impossível que o governo em Teerã simplesmente caia sem esboçar qualquer ataque. 

A recente escalada coordenada de lançamento de mísseis por Hamas e Jihad Islâmica Palestina pode ter sido arquitetada ou ordenada a partir de Teerã, mas isso não resolve a situação dos iranianos. Ou seja, pressionar Israel não funciona como poder de dissuasão. Pelo menos não integralmente. 

Lembrando sempre do olhar de Donald Trump para a política externa. O presidente norte-americano enxerga alguns pontos mais problemáticos da administração de Barack Obama. Em seu entendimento, precisam ser resolvidos. Ou, para repetir o termo que costumo aplicar, precisam ser desconstruídos. É o caso do acordo sobre o programa nuclear do Irã. 

Enquanto John Kerry entendia a aproximação com Teerã como um caminho para impedir que o regime alcançasse armamento nuclear por meio do desenvolvimento de ogivas a serem instaladas em mísseis, o governo Trump e o outro John (Bolton) pensam exatamente o contrário. A garantia da interrupção da corrida por armas nucleares por parte do Irã demanda reforço de pressão sobre o país, principalmente impedindo sua movimentação estratégica entre seus aliados regionais.

Portanto, Washington pretende manter o foco em torno do projeto de expansão e transformação hegemônica do Irã, um dos casos de movimentação geopolítica de maior destaque no Oriente Médio. 

Para conter o projeto, os EUA aplicam a cada dia mais pressão, enquanto o Irã deixa clara a disposição para manter a atuação regional e, acima de tudo, salvar o próprio regime. A escalada da tensão entre esses dois atores se aprofunda porque o objetivo de cada lado representa a anulação do projeto oposto.

Ao atuar em Gaza, ao ameaçar fechar o Estreito de Ormuz, (discurso constante do regime em Teerã) por onde circula um quinto de petróleo de todo o mundo, os iranianos deixam evidente a movimentação diante das declarações e decisões em Washington. Em primeiro lugar, correm para salvar o próprio regime. Em segundo, para manter os planos de hegemonia no Oriente Médio.