A crise entre EUA e Irã e a lógica da Black Friday

21 de Maio de 2019
Por Henry Galsky Em meio à crise retórica entre EUA e Irã, as autoridades dos dois países se debatem sobre intenções de guerra e de paz. A pressão ao regime iraniano atingiu seu ponto máximo com a declaração do presidente norte-americano, Donald Trump, de que “se o Irã quiser brigar, será o fim do Irã”. Ao mesmo tempo, o chefe da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC, em inglês), Major-general Hossein Salami, declarou estar “à beira de um confronto em larga escala com o inimigo”. 

O ponto é que, apesar da guerra verbal, é improvável que os países estejam realmente interessados em iniciar um conflito direto. A retórica se destina a manter posição e agradar públicos distintos. O próprio Trump negou haver canais ativos de comunicação entre os dois países, muito embora não tenha dado os nomes das fontes ou veículos aos quais estava se contrapondo a partir da declaração. 

Já o Líder Supremo da Revolução Iraniana, o aiatolá Ali Khamenei – a maior autoridade do país – foi explícito ao dizer que não haverá guerra:

“Este confronto não é militar porque não haverá guerra. Nem nós, nem eles [os EUA] buscam a guerra. Eles sabem que não será do seu interesse”, diz a declaração de Khamenei conforme citada na versão em inglês de seu site oficial (sim, há um site oficial de Ali Khamenei escrito em inglês). 

Numa de suas recentes declarações enigmáticas, o presidente americano mandou um recado aos líderes iranianos determinando que não telefonem para conversas a não ser que estejam dispostos a negociar. E eis aqui um ponto-chave para mais uma vez compreender a lógica de Donald Trump. 

Como deixou de forma unilateral o acordo sobre o programa nuclear do Irã (alcançado em 2015 pela administração Barack Obama), é possível que Trump pretenda não apenas derrotar os iranianos, mas mostrar ao público interno norte-americano sua capacidade de negociação. 

Ou seja, talvez Trump imagine construir algum entendimento paralelo com os iranianos que – em sua visão – consiga superar o acordo forjado por Barack Obama e John Kerry (seu secretário de Estado durante o processo de costura e assinatura). 

Este raciocínio poderia explicar a declaração enigmática do presidente americano já mencionada neste texto. Pode ser que algum enviado de Washington ou mesmo um intermediário esteja negociando uma forma de aproximação com Teerã nos moldes como foi construído o encontro entre Trump e Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte. 

Esta lógica também poderia explicar a razão dos iranianos divulgarem a decisão do governo de aumentar em quatro vezes a taxa de enriquecimento de urânio. É como a Black Friday brasileira, quando muitas lojas aumentam o valor para logo reduzi-lo na data especial – de forma a parecer que de fato há uma promoção imperdível e bastante vantajosa aos clientes. É claro que este é um cenário meramente especulativo, mas é possível costurar os elementos que têm sido apresentados.