As contradições oficiais das autoridades do Irã

05 de Junho de 2019
Por Henry Galsky Mohammad Javad Zarif (foto), ministro das Relações Exteriores do Irã e principal articulador do país durante o processo de negociação do acordo nuclear em 2015, disse que os EUA “estão fazendo um jogo muito, muito perigoso de graves consequências a todos”. Zarif também declarou que não aceita qualquer interação com os norte-americanos, a não ser que Washington demonstre respeito pelo Irã. 

Ao mesmo tempo, Qassem Suleimani, comandante da Força Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC), pediu às milícias xiitas aliadas que se preparem para um cenário de guerra. 

Ambos os posicionamentos se opõem a outras declarações de autoridades do país, inclusive de posições oficiais do próprio aiatolá Ali Khamenei, a maior autoridade iraniana. 

O membro do parlamento Heshmatollah Falahatpisheh – presidente da Comissão de Política Externa e Segurança nacional – declarou por meio da agência de notícias semioficial ISNA que o país não entrará numa guerra (com os EUA) sob nenhuma circunstância. 

Desta maneira, é possível observar a construção de uma dinâmica curiosa, mas que dificilmente pode ser considerada meramente ocasional: o parlamentar se contrapõe ao presidente, que por sua vez concorda com o comandante da Força Quds, que por sua vez é desmentido pelo Líder Supremo. 

Esta parece ser uma estratégia bem construída para causar confusão. Há uma diferença de lógica em relação ao Ocidente – e certamente em relação aos EUA. Os iranianos sabem disso e fazem uso desta ferramenta de comunicação desencontrada, principalmente porque a percepção norte-americana e a interpretação dos sinais enviados a partir de Teerã ficam prejudicadas. 

Talvez este momento de impasse e as mensagens enigmáticas do presidente Donald Trump estejam relacionados a esta dificuldade de mapear quais os reais interesses do Irã. Desta maneira, a estratégia iraniana parece estar funcionando, nem que seja para ganhar mais tempo de forma que seja possível também às autoridades da República Islâmica conseguir antecipar os próximos passos da administração em Washington.