Ao derrubar drone, o Irã dá seu passo mais ousado na disputa com os EUA

21 de Junho de 2019
Por Henry Galsky A escalada de tensões entre EUA e Irã é evidente. Mas não é uma disputa isolada nem pode ser compreendida como tão somente (o que já seria muito) parte do extenso histórico de ruptura, distanciamento e hostilidades entre esses dois países. 

No ano em que a Revolução Islâmica completa 40 anos, há outros elementos e focos de tensão em todo o Oriente Médio. A busca iraniana por protagonismo e liderança hegemônica deram ao país também um importante papel na centralidade da geopolítica regional. 

Como costumo escrever, existe uma linha que tragicamente une e percorre os principais conflitos no Oriente Médio: a divisão religiosa e politicamente consolidada entre muçulmanos sunitas e xiitas. 

O Irã, o maior país xiita, é considerado uma ameaça existencial pelas monarquias sunitas do Golfo Pérsico. Este ponto é fundamental e já o abordei inúmeras vezes por aqui. Não quero me estender sobre isso, mas é importante relembrá-lo. 

O desdobramento deste temor é uma das razões que explicam outros pontos de tensão permanente. Junto a isso, a estratégia de expansão de Teerã que, em curso e com relativo sucesso, tem lhe permitido construir uma grande rede de milícias xiitas e aliados estabelecidos no Iraque, na Síria, em Gaza, no Líbano e no Iêmen. 

A aproximação com os iranianos de forma a controlar a ambição por tecnologia nuclear foi imaginada pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama de forma a iniciar um processo de transição e construção de confiança. Foi por essa razão que o então ex-secretário de Estado John Kerry não abandonou as negociações até conseguir chegar ao acordo com os iranianos. 

Mas, por outro lado, a aproximação entre EUA e Irã não foi capaz de obter qualquer compromisso em relação a esta rede de sustentação e distribuição de recursos e armamento por Teerã. Pelo contrário. 

As milícias e grupos fiéis ao Irã estão espalhados e em atuação regional; o Hezbollah no Líbano, os houthis em guerra aberta contra os sauditas no Iêmen, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina (sunita, mas vinculada aos ideais da Revolução Islâmica iraniana), além da própria Guarda Revolucionária do país diretamente estabelecida na Síria. A teia de atuação do Irã está consolidada. 

Mas então Donald Trump decidiu se retirar do acordo nuclear. E as fontes de recursos diminuíram. O governo do Irã perdeu inclusive a possibilidade de vender petróleo, seu principal produto de exportação. Antes da decisão do presidente norte-americano, os iranianos exportavam 2,5 milhões de barris por dia. Este número hoje não chega a 1 milhão. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta ao país contração econômica neste ano de 6%. 

O episódio de derrubada do drone dos EUA é parte do movimento de construção de narrativa e poder de dissuasão. Complementa o anúncio por parte da República Islâmica de que teria quadruplicado a produção de urânio - justamente em desacordo aos compromissos assumidos com as potências internacionais. 

Segundo a Agência de Energia Atômica do Irã, as reservas de urânio enriquecido vão ultrapassar os limites previstos no acordo nuclear (abandonado de forma unilateral por Trump) no próximo dia 27 de junho. 

Os iranianos sabem que há um grande temor internacional de uma nova guerra no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, o governo norte-americano foi eleito prometendo aos cidadãos do país que, em oposição às administrações anteriores, não investiria dinheiro dos impostos dos contribuintes em novos e desnecessários conflitos externos. 

Este é um dos dilemas da situação atual; o que exatamente define quais ações internacionais são ou não necessárias. Lembrando sempre que os principais países aliados dos EUA na região abertamente se declaram ameaçados pela atuação e pela estratégia do Irã. Ao derrubar o drone, Teerã jogou a bola de volta aos norte-americanos.