Irã ultrapassa limites estabelecidos pelo acordo nuclear e aumenta a tensão com os EUA

08 de Julho de 2019
Por Henry Galsky Os iranianos romperam pela primeira vez os limites relativos à quantidade de enriquecimento de urânio estabelecido no acordo nuclear de 2015 cujo principal articulador foi justamente o corpo administrativo e político liderado pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama. 

O embate entre EUA e Irã é resultado deste novo ciclo de  tensões que vem ganhando força a cada novo passo, a cada nova provocação; este processo tomou novo impulso a partir da eleição de Donald Trump - depois de uma campanha em que, entre outros, o acordo com o Irã foi alvo de ofensivas verbais por parte do atual presidente a seu antecessor. 

Na sequência, já com Trump no cargo, os EUA decidiram deixar o acordo de forma unilateral, em 2018. Em 2019, com novas sanções em vigor (que chegaram a seu estágio mais dramático ao atingir a venda de petróleo pelos iranianos), ataques aos navios-tanque no Estreito de Hormuz - cuja autoria se suspeita ser de milícias xiitas a serviço do Irã ou mesmo por ordem do próprio Estado iraniano - e a decisão de Teerã de abater o drone dos EUA (que ainda não se sabe exatamente onde estava quando foi atingido), a corda se esticou ao máximo. 

Este é um daqueles momentos que parecem anteceder algo maior e mais grave. A subida no tom das ameaças das duas partes é prenúncio de que há algum tipo de movimentação. Nos bastidores, nem EUA, nem Irã estão interessados num conflito. Como tenho escrito sucessivamente por aqui, Donald Trump foi eleito prometendo reduzir a participação do país em aventuras militares internacionais. 

Ser protagonista de uma nova guerra no Oriente Médio depois de experiências recentes muito malsucedidas (Iraque, Afeganistão e Líbia) não me parece um caminho que Trump - em início de campanha pela reeleição no ano que vem - escolheria de forma voluntária. 

O mesmo se aplica ao Irã. Apesar do discurso, o regime entende o tamanho do problema que significa enfrentar a força militar mais poderosa do mundo. Isso sem falar que os iranianos possuem problemas internos graves, como a inflação, o peso das sanções em função justamente do programa nuclear e os sucessivos erros no desvio do curso dos rios que podem levar o governo de Teerã a ter de lidar com uma série crise hídrica. A inflação de maio no Irã chegou a 52,1%, a maior taxa desde julho de 1995. 

Mas há exemplos recentes na região de atores que negam interesse em conflito mas que acabam rumando para este cenário. Os mísseis lançados pelo Hamas sobre Israel e a retaliação israelense me parecem uma situação que guarda alguma similaridade com as tensões entre EUA e Irã. 

Por mais que oficiais do Hamas e membros do governo de Israel dissessem não estar interessados no confronto, as partes acabaram por se envolver num enfrentamento limitado justamente pelas ameaças subirem de tom até se transformarem em ações práticas que quase levaram a um conflito mais amplo. Muito embora, no caso deste exemplo, os conflitos variam de intensidade e já assumiram dinâmica própria. Mas vale para ilustrar a rápida transformação de discurso em atitudes práticas. 

Este é o risco envolvido nesta disputa verbal entre EUA e Irã. As ameaças de ambos já assumiram forma real (os ataques aos navios petroleiros no Estreito de Hormuz, o envio do drone de observação norte-americano e seu abate pelas forças iranianas). Se não houver alguma forma de articulação de bastidores - o que parece ser o caso -, a situação pode realmente sair de controle.