Crise com o Irã: as diferentes abordagens de Obama e Trump

16 de Julho de 2019
Por Henry Galsky Obter algum compromisso com os iranianos é uma espécie de troféu. Teerã sabe disso e joga como pode, deixando muito claro que o preço a se pagar não vai ser baixo. Aliás, não por acaso desde o final do século 20 está empenhada – com sucesso – na construção de uma extensa rede de fidelidades sobre as quais comento por aqui com frequência. 

O governo de Donald Trump considera de suma importância algumas frentes internacionais. A Coreia do Norte, o conflito árabe-israelense (e o conflito entre palestinos e israelenses, mais especificamente) e o Irã. Há algo em comum a todos eles: em nenhum dos casos, o ex-presidente Barack Obama foi bem-sucedido. Ou melhor, a depender da interpretação. 

O acordo nuclear assinado em 2015 não apenas com o Irã mas com outros cinco países – três deles os europeus França, Alemanha e Grã-Bretanha – representou, ao lado da aproximação com o governo cubano, o principal legado de Obama no campo da política externa. 

O então secretário de Estado John Kerry procurou convencer a opinião pública doméstica e os países aliados dos EUA (que ainda se sentem diretamente ameaçados pelo programa nuclear de Teerã) de que este era o caminho mais efetivo e menos traumático para reinserir o Irã na comunidade internacional. O próximo passo seria, pouco a pouco, graças à política de engajamento, desmobilizar o projeto iraniano de forma a reduzir as possibilidades de atritos na região. 

Esta é uma das maneiras de encarar a situação. É, sem a menor dúvida, um olhar racional e certamente otimista sobre o programa nuclear iraniano e seu desmonte diplomático. 

A ideia de desconstrução dos itens apresentados pelo governo anterior norte-americano é pauta permanente da administração atual nos EUA. Mas esta premissa explica apenas parcialmente a situação. 

Há aqui neste ponto duas visões em conflito. Visões que explicam de maneira mais aprofundada as distintas formas de abordagem por parte dos dois governos dos EUA. 

Mesmo sob críticas importantes em relação aos termos do acordo assinado pelos países com o Irã, havia por parte do ex-presidente Obama uma linha mestra a conduzir sua política internacional. 

Apesar de o acordo ter abordado apenas lateralmente questões importantes, como a política regional do Irã, o governo Obama parecia deixar mais claro o que diferenciava sucesso de fracasso, algo que não ocorre atualmente. 

O caso da Coreia do Norte é emblemático quanto a esta lógica. Ainda não houve desmobilização completa das ambições nucleares do país, nem muito menos troca do regime (algo que poderia ser considerado um sucesso total sob a perspectiva norte-americana). No entanto, depois de trocas de ofensas por Twitter, as lideranças dos dois países se encontraram pessoalmente em junho de 2018 em Cingapura. 

Já houve dois outros encontros desde então. E, apesar das gentilezas, ainda não é possível mensurar de forma clara os impactos da aproximação entre as lideranças dos dois países. Muito embora o presidente norte-americano costume dizer que, “se tivesse perdido as eleições de 2016, os EUA já estariam em guerra com a Coreia do Norte” em função de suas armas nucleares e do programa de mísseis balísticos. 

Para que fique claro, esta não é de nenhuma maneira uma crítica ao engajamento, apenas uma análise sobre como os dois presidentes – Obama e Trump – enxergam o sucesso na forma de condução da política internacional. Obama imaginava um olhar mais amplo, multilateral. O acordo nuclear previa inclusive uma série de etapas a serem cumpridas, compromissos assumidos pelas partes e relação direta entre a execução do planejamento e o relaxamento das sanções. O projeto final previa o afrouxamento em troca de engajamento. 

A abordagem de Trump à Coreia do Norte ainda não obteve resultados práticos claros. Mas certamente o presidente usará as imagens dos encontros com o ditador Kim Jong Un como símbolo do triunfo de sua atuação internacional – capaz inclusive de evitar um conflito de grandes proporções entre os dois países. 

O projeto é usar a mesma lógica ao Irã. A questão é que iranianos e norte-coreanos têm agendas e possibilidades distintas. O plano iraniano de tornar-se potência hegemônica no Oriente Médio é bem distinto em relação ao isolamento da Coreia do Norte e sua aliança única com a China. E, para ser muito claro, o Irã tem intenções diversas em relação à campanha eleitoral norte-americana. Sim, o Irã é um ator importante neste jogo. Mas este é assunto para um outro texto.