Argentina: vinte e cinco anos depois, ataque terrorista contra centro judaico permanece impune

18 de Julho de 2019
Por Henry Galsky No dia em que a Argentina marca os 25 anos do maior atentado cometido contra seus cidadãos, o governo do país determinou que a milícia xiita libanesa Hezbollah passe a ser designada como organização terrorista. O ataque à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) deixou 85 mortos e 300 feridos. Vinte e cinco anos depois, absolutamente ninguém foi julgado. 

O atentado ocorreu apenas dois anos depois de um ataque à embaixada de Israel em Buenos Aires, quando 29 pessoas foram mortas. Em comum aos atentados de 1992 e 1994, a impunidade. Vinte e cinco anos depois, nenhuma resposta, nenhum julgamento, nenhuma prisão. Sobram teorias, sobram intenções. 

Na parte das teorias, vale citar a tese muito bem estruturada pelo jornalista Guga Chacra. Leia-a aqui

Além do Hezbollah libanês, a suspeita pela realização dos atentados recai também sobre o Irã. E aqui há possibilidade de envolvimento de membros da cúpula do regime. 

De acordo com a Interpol, algumas das figuras mais importantes do Estado iraniano estariam envolvidas no planejamento e execução do ataque. Por causa disso, em 2007 foram emitidos alertas para a detenção de oficiais do país, inclusive do ex-ministro das Relações Exteriores Ahmad Vahidi. Não funcionou. Vahidi, General de brigada do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), é membro atual do Conselho Consultivo do Líder Supremo do país – lembrando sempre que, no Irã, o Líder Supremo é a maior autoridade do regime, acima inclusive do presidente. 

Para tornar a situação ainda mais complexa, Alberto Nisman, procurador especial apontado pela então presidente argentina Cristina Kirchner para conduzir as investigações, foi encontrado morto em seu apartamento em janeiro de 2015. Supostamente, Nisman teria provas do envolvimento da então presidente com o governo iraniano de forma a encobrir a participação de Teerã no ataque. O procurador foi morto um dia antes de apresentar o resultado de suas investigações. A versão oficial de Buenos Aires é de que Nisman teria se suicidado. 

Não por acaso a decisão de designar o Hezbollah como organização terrorista ocorre exatamente 25 anos depois do ataque à AMIA. O presidente Maurício Macri possui visão ideológica distinta à de Kirchner. E neste ponto me parece haver alguma confusão; vinte e cinco anos é tempo demais para que não haja qualquer resposta. O atentado contra a AMIA foi um ato contra a Argentina, contra a América Latina e contra a os judeus de maneira ampla. 

Por algum tempo, parte da sociedade argentina tratou os ataques – contra a embaixada de Israel e contra a AMIA – com certa distância, como se o país tivesse se transformado temporariamente – e talvez até ocasionalmente – num palco prolongado das disputas geopolíticas no Oriente Médio. De alguma forma, esta narrativa encontrou adeptos e possivelmente ajuda a explicar porque, 25 longos anos depois, a sociedade argentina e sua comunidade judaica – que é parte integrante da sociedade argentina – ainda não obtiveram qualquer resposta concreta. Este olhar leniente é parte de uma visão antissemita que ainda perdura, como se um ataque contra alvos judaicos fosse aceitável porque seria “explicado” em função do conflito maior no Oriente Médio. Esta visão é errada. 

Por isso, apesar do fato de o Hezbollah ser um grupo que pratica ações terroristas, apenas este reconhecimento por parte do atual governo argentino não resolve os questionamentos que se arrastam pelos últimos 25 anos. 

Onde estão os culpados? Quando eles serão julgados? Por que Alberto Nisman foi morto? Qual o envolvimento do estado argentino? No momento em que o antissemitismo voltou a ser uma força política em atuação em todo o mundo - à direita e à esquerda -, a sociedade argentina e sua comunidade judaica – e a América Latina e os que de fato se importam amplamente com os direitos humanos, não apenas seletivamente – merecem essas respostas.