O novo primeiro-ministro da Grã-Bretanha e o sucesso eleitoral da polarização

24 de Julho de 2019
Por Henry Galsky Boris Johnson é o novo primeiro-ministro britânico. O ex-prefeito de Londres é uma das figuras mais importantes dos nossos tempos. Líder do movimento que viabilizou o sucesso da saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), o Brexit, é também símbolo de uma era onde mensagens simplórias e apelativas encontraram sucesso e transformaram muitas mentiras em verdades por meio dos algoritmos das redes sociais. Johnson não inventou o sistema, mas é, por enquanto, um dos seus maiores beneficiados. 

A carreira bem-sucedida do sucessor de Theresa May pode ter vida curta, a depender principalmente dos impactos do Brexit no país e, mais importante, na vida dos cidadãos comuns. Boris Johnson venceu as eleições no Partido Conservador – e alcançou popularidade – por defender a saída da UE a qualquer custo. Ele promete que no próximo dia 31 de outubro o impasse que custou o cargo de May estará resolvido. 

Tal como a eleição de Donald Trump nos EUA, a aprovação em referendo popular do Brexit figura nos livros de história como exemplo de como o uso das ferramentas e algoritmos da internet conseguiu atingir em cheio as emoções dos eleitores de forma personalizada. Medos, expectativas e preconceitos formaram – e ainda formam – equações matemáticas prontas para alcançar indivíduos em seus temores e sonhos pessoais, moldando candidaturas para responder com mensagens simples e diretas. Funcionou para Trump, para o Brexit e, claro, para a campanha eleitoral do atual presidente brasileiro. 

Para além de ser a receita de um modelo de campanha – e, no caso de Johnson, de construção de uma persona política –, o Brexit e o sucesso do novo primeiro-ministro retratam ainda outra característica relevante deste tempo: a polarização. 

E aí a Grã-Bretanha e seu modelo apresentam como efeito colateral o contingente de órfãos políticos, os abandonados por Trabalhistas e Conservadores – cujos partidos estão tomados parcialmente pela esquerda radical absorta em teorias de conspiração e antissemitismo, no caso Trabalhista, ou pela verve discriminatória da extrema direita nacionalista, caso do partido Conservador. 

Boris Johnson, líder dos conservadores e por isso primeiro-ministro, e Jeremy Corbyn, o líder da oposição trabalhista, são produtos e artífices deste meio e desses tempos. São dois polos que explicam em boa medida a atual situação de impasse no Reino Unido e cujas bandeiras e slogans estão espalhados por todo o mundo. 

E a saída da UE?

Do ponto de vista prático, há um cenário projetado de piora e caos no Reino Unido. Se de fato Johnson cumprir sua promessa e a Grã-Bretanha deixar a UE sem qualquer acordo, além das enormes filas em Dover, o porto mais movimentado da Europa, há expectativa de aumento no preço dos alimentos e grande desvalorização da libra, a moeda britânica. De acordo com o Banco da Inglaterra, o Produto Interno Bruto (PIB) pode cair até 9,3% ao longo do período de 15 anos após a concretização do Brexit. Se não houver qualquer acordo, claro.