O trágico destino de Idlib, na Síria

29 de Julho de 2019
Por Henry Galsky A província de Idlib fica no noroeste da Síria. Ela é o foco das forças em atuação no país depois de oito anos de guerra civil. Com seus três milhões de habitantes – mais do que o dobro da população do período anterior à guerra –, a província é, na prática, a vitória que resta para que o ditador Bashar al-Assad, com apoio da Rússia, do Irã e do grupo terrorista libanês Hezbollah, retome o controle integral do país.
 
Os ataques de russos, sírios e seus aliados à província já teriam causado o deslocamento de 270 mil moradores. Estruturas médicas, hospitalares, mercados e escolas também teriam sido alvejadas. Já teriam sido atingidos 44 escolas e quatro hospitais. A informação de 150 ataques aéreos empreendidos pela Rússia é fornecida pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR), organização baseada na Grã-Bretanha dedicada ao monitoramento da guerra civil. Mas esses dados não puderam ser comprovados por veículos de comunicação.
 
O quadro na Síria não permite simplificações. Desde 2014, o regime de Assad e a Rússia iniciaram uma política que projetava para Idlib este sprint final; a partir da ofensiva e dos enfrentamentos com os rebeldes em atuação no país, esses dois atores – a Rússia e o governo de Assad – estabeleceram a diretriz que resultou no trágico destino da província. Aos rebeldes (e mais adiante explico quem são esses rebeldes), duas escolhas; a rendição a russos e sírios pró-Assad ou o despacho para Idlib.
 
Desta maneira, a província se tornou um depósito não apenas de rebeldes das mais diversas fidelidades, mas também de cidadãos indesejados e de pessoas comuns internamente deslocadas pela grande guerra civil ainda em curso.
 
Internamente, Idlib foi afetada pelo plano de russos e sírios fiéis a Assad. As estimativas dão conta de que hoje a província seja moradia e base de atuação de algo entre 60 mil e 90 mil rebeldes – jihadistas variados, mas cuja disputa interna parece dar força ao Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), grupo derivado da filial síria da al-Qaeda. O HTS tem derrotado a maior parte dos rivais locais, inclusive dois grupos terroristas que vinham recebendo apoio da Turquia. De fato, a situação é complicada mesmo.
 
Os turcos estão logo ali do outro lado da fronteira (uns 80 quilômetros de carro, mais ou menos). O governo em Ancara tem duas preocupações fundamentais envolvendo a Síria: a primeira delas, um eventual novo fluxo de refugiados. A Turquia já recebeu 3,6 milhões de sírios em fuga. Idlib é fonte de inquietação porque a instabilidade e a disputa entre russos e os rebeldes (como mostrei, muitos deles membros de grupos terroristas e suas inúmeras variações) porque a Turquia não quer ser novamente o destino dos refugiados de Idlib.
 
A outra preocupação turca é um pilar de sua atuação internacional: a contenção dos curdos e de seu ainda não alcançado projeto de autodeterminação. A instabilidade na Síria deu aos curdos mais uma oportunidade de reivindicar seu estado nacional. Mais ainda, as sucessivas vitórias militares curdas – com apoio norte-americano – serviram aos turcos como motivação para que pensassem em estratégias no território sírio.
 
Desta maneira, a Turquia precisa se alinhar aos russos – apesar da fragilidade nas relações entre os dois países – de forma a buscar estabilidade em Idlib e impedir que, no nordeste da Síria, a coalizão norte-americana que derrotou o Estado Islâmico consiga obter ainda mais avanços. Os curdos da Síria formam boa parte da coalizão dos EUA. Ao mesmo tempo, a Rússia pressiona os turcos para que estabilizem Idlib de forma a permitir ao governo sírio a reabertura de uma rota comercial importante no processo de reconstrução da economia do país.
 
Este é o cenário que, de maneira mais ampla, cerca o projeto final, a ofensiva cujo objetivo é encerrar a guerra civil na Síria, dando a Bashar al-Assad – e principalmente a Vladimir Putin – a grande vitória estratégica neste novo Oriente Médio.