O fim de acordo da Guerra Fria entre EUA e Rússia tem a China como objetivo final

06 de Agosto de 2019
Por Henry Galsky Estados Unidos e Rússia encerraram o tratado para a eliminação dos mísseis nucleares de curto e médio alcance (INF, em inglês) vigente desde 1987 e um dos símbolos do sucesso de lideranças norte-americanas e soviéticas na construção de um caminho de diálogo que foi capaz de evitar uma guerra total - e possivelmente nuclear - entre as então duas únicas potências mundiais. 

O tratado INF foi alcançado num mundo que hoje já não existe mais. O ambiente em que o acordo foi assinado apresentava uma Europa temerária e enfraquecida diante de duas superpotências globais que poderiam - e ameaçavam - transformar discursos em ação justamente tendo o continente europeu como teatro de operações. 

O sucesso do acordo revelava também duas lideranças com grande capacidade de análise e admiração mútua apesar de divergências ideológicas claras: Ronald Reagan, o presidente norte-americano Republicano que temia uma guerra nuclear; e Mikhail Gorbachev, que viria a ser o último líder da União soviética e que entendia a necessidade de realização de profundas reformas internas. 

O mundo mudou muito, naturalmente. E o encerramento do INF reflete algumas dessas mudanças.

Apesar do caminho mais óbvio apontar para uma nova divisão e corrida armamentista entre EUA e a Rússia, a verdade é que a agenda de Washington aponta para outras preocupações na Ásia, em especial a ascensão da China e de suas intenções militares sustentadas por seu enorme poderio econômico. 

Em 2017, Harry Harris, ex-chefe do Comando do Pacífico das Forças Armadas dos EUA, disse ao Senado norte-americano que a China possuiria dois mil mísseis balísticos. E, apesar de EUA e Rússia já desenvolverem mísseis hipersônicos capazes de voar mais rapidamente do que a velocidade do som, a China também possui este tipo de armamento em seu arsenal, mas, no entanto, não está submetida a qualquer mecanismo de controle. Esta é a principal dor de cabeça de Donald Trump, não a Rússia. 

Aliás, assim como em muitos outros setores de sua política externa, o presidente norte-americano vem pressionando Beijing a aceitar algum tipo de acordo ou compromisso de limites em relação a seu arsenal. Mas, também como vem ocorrendo em outras frentes internacionais (Irã, conflito entre israelenses e palestinos, Coreia do Norte), a atual administração em Washington tampouco tem recebido qualquer sinalização positiva por parte da China. 

Apesar disso, a análise norte-americana é correta: a China busca consolidar dominação hegemônica na Ásia. 

E o projeto de conciliação econômica e militar do país caminha para alcançar resultados bem-sucedidos, casos por exemplo da Nova Rota da Seda lançada em 2013 (o maior conjunto de obras estruturais da história humana) e da demanda territorial de Beijing sobre o Mar do Sul da China, que envolve inclusive a construção de ilhas artificiais no mar, em oposição inclusive a uma decisão contrária tomada pela Corte Permanente de Arbitragem de Haia, na Holanda, em julho de 2016.