Eleições em Israel: a união de dois partidos pode mudar o jogo

20 de Agosto de 2019
Por Henry Galsky Na última semana, apresentei um panorama amplo sobre a segunda rodada das eleições israelenses. Lembrando que no próximo dia 17 de setembro, Israel vai buscar resolver as muitas pendências eleitorais deixadas em aberto pelo governo não formado após o pleito de 9 de abril, quando o corpo político do país foi incapaz de se ajustar.

Em suspenso desde então, o Knesset, o parlamento, tem uma nova chance em setembro. Em jogo, novamente as 120 cadeiras fundamentais para que se estabeleça ao menos uma maioria simples de 61. Não foi possível em abril e maio; continua a ser complicado agora. Aliás, desde os resultados, os pretendentes a ocupar seus lugares – e a cadeira mais importante, a de primeiro-ministro – praticam o longo exercício da articulação política. 

Talvez este processo seja interessante a eles, mas a sensação é de desgaste profundo por parte da população, uma vez que há quatro meses os membros dos partidos praticam um esporte matemático que une lógica, discurso, retórica e ambição de forma a aglutinar ideias e bandeiras para convencer o eleitorado e dobrar adversários. 

Do ponto de vista prático, há três grandes blocos na disputa: o Likud, de direita, liderado por Benjamin Netanyahu (com algo em torno de 30 cadeiras, conforme apontam as pesquisas); o Azul e Branco (liderado por Benny Gantz e Yair Lapid) com o mesmo número, ou pouco abaixo; na sequência, com 11 cadeiras, a Lista Unida Árabe (que reúne os partidos árabes que irão concorrer juntos), a Direita Unida também com 11 assentos (a união dos partidos de direita liderada pela ex-ministra da Justiça Ayelet Shaked) e o grande protagonista deste processo com dez cadeiras, o ex-aliado de Netanyahu Avigdor Liberman (do partido Yisrael Beytenu). 

Liberman é responsável por este ano eleitoral. Ao deixar a coalizão de governo, provocou novas eleições. Liberman pode ser o fiel da balança mais até do que os outros dois concorrentes que estão a sua frente na corrida; pelas circunstâncias e por vontade própria, a Lista Árabe Unida não entra em qualquer coalizão de governo, seja de direita, seja de esquerda. É uma decisão histórica dos partidos árabes. O partido liderado por Shaked, a Direita Unida, talvez seja irrelevante se a saída encontrada for a de um governo de coalizão. E aqui se desenha um dos resultados possíveis para encontrar uma saída ao impasse atual; 

O governo de coalizão pode unir Likud, Azul e Branco e Yisrael Beytenu. Se isso ocorrer – e as conversas de bastidores apontam este caminho – o governo contaria com algo em torno de 70 cadeiras no Knesset, uma maioria bastante confortável. Ayelet Shaked, desafeto dos Netanyahu (me refiro inclusive a Sarah Netanyahu, que supostamente teria impedido a adesão de Shaked ao Likud), seria, portanto, desnecessária para a formação de maioria parlamentar. Por mais que os partidos de oposição a Netanyahu neguem com veemência esta possibilidade, não seria impossível imaginar a concretização deste projeto. Há duas semanas, Benny Gantz, líder do Azul e Branco ao lado de Yair Lapid, cometeu ato falho durante uma entrevista coletiva dando a entender que estaria aberto a conversar – depois voltou atrás. 

Se Netanyahu entender que a permanência no cargo está claramente ameaçada, poderá inclusive propor revezamento durante o mandato; ou seja, ele seria primeiro-ministro nos primeiros dois anos, cedendo o lugar ao companheiro de coalizão nos dois anos seguintes. No caso, possivelmente a Gantz. O problema neste momento é que Gantz até aceitaria esta configuração, mas tem dito que ele deveria ocupar o cargo nos dois primeiros anos e que Netanyahu não poderia ser o candidato do Likud. Sendo bastante franco, é improvável que Gantz obtenha este compromisso, mesmo levando-se em consideração os adversários internos de Bibi no Likud. 

Já a conversa com Liberman é mais pragmática. Ele já conseguiu ocupar o espaço que pretendia no imaginário da população; a de que hoje é o grande opositor da influência da minoria de judeus ultraortodoxos nas decisões políticas do país (esta minoria judaica representa cerca de 12% dos cidadãos israelenses). As condições que Liberman estabeleceu para fazer parte desta possível união de forças já foram publicamente assumidas em algumas entrevistas recentes: que Netanyahu se comprometa a formar um governo amplo, nacional e liberal. Ele também exige abertamente o controle de quatro ministérios: Defesa, Absorção (que cuida do orçamento e das políticas destinadas a receber os judeus que emigram para Israel), Interior e Saúde. E, claro, Liberman também demanda que Netanyahu abandone a aliança e os comprometimentos com os ultraortodoxos. Talvez esta seja a chave de sua permanência como primeiro-ministro.

Nesta terça-feira, foi revelado um acordo firmado entre os partidos Yisrael Beytenu, de Liberman, e Azul e Branco, de Gantz e Lapid. A intenção é aparentemente apenas fazer uma troca de votos. Ou seja, aplicar um mecanismo técnico até bastante comum no país de forma a não desperdiçar votos. Assim, os dois partidos podem “emprestar” votos no caso de a quantidade ser insuficiente para atingir uma cadeira. 

Para ser mais claro, um exemplo. Se o Yisrael Beytenu tiver uma quantidade de votos “sobrando”, porém incapaz de eleger um deputado a mais, irá repassá-la ao Azul e Branco, no caso de o partido de Gantz e Lapid estiver na frente da corrida eleitoral para que esses votos complementem os já destinados ao partido. Pela lei do país, esses votos extras devem ser destinados obrigatoriamente à legenda que estiver mais próxima de obter mais um assento no Knesset, o parlamento de Israel. 

O acordo firmado entre Yisrael Beytenu e Azul e Branco sinaliza a proximidade entre seus líderes. Mais importante do que afinidades técnicas e ideológicas, é a mensagem que ambos mandam a Netanyahu: possivelmente sairão unidos das urnas. Se de fato a realidade confirmar as pesquisas, é possível que, juntos, Yisrael Beytenu e Azul e Branco consigam obter algo em torno de 40 cadeiras, precisando apenas de mais 21 para formarem uma coalizão de governo e elegerem o primeiro-ministro do país. 

Neste cenário, a força e o poder de barganha mudam de mãos. Netanyahu não está mais no controle, mas ainda tem força já que ainda pode ser o partido mais votado. No entanto, como este ano tem deixado evidente, não haverá governo sem muita negociação. Resta saber o quanto – e até onde – Netanyahu está disposto a perder. Porque a união entre Yisrael Beytenu e Azul e Branco é um golpe capaz de causar uma reviravolta na política israelense.