Os inimigos do regime no Brasil

26 de Agosto de 2019
Por Henry Galsky A série Years and Years, exibida pela HBO e criada por Russell T. Davies, acompanha as transformações globais e seus impactos numa família britânica comum, os Lyons, ao longo de 15 anos a partir de 2019. Graças a um olhar imaginativo e analítico, a série consegue captar as consequências das evolucões tecnológicas e das mudanças políticas que, aliadas, produzem um futuro próximo (que a obra retrata até 2031) muito pouco animador. 

Governos de visões extremas - à direita e à esquerda - se revezam nos principais países do mundo. Em determinado momento, um personagem está em exílio na Espanha que, ao contrário da Grã-Bretanha, assiste à ascensão política não da extrema direita, mas da extrema esquerda. O personagem que está na Espanha teme ser expulso do país. Causa espanto ao interlocutor a perspectiva de extradição do refugiado:

"Mas a Espanha agora não tem um governo de extrema esquerda?" 

Este questionamento fundamental dá a dimensão do exercício sombrio de projeção: governos extremistas, de esquerda ou direita, se assemelham em suas medidas extremas. 

O populismo que hoje está no poder em muitos países se associa a esses dois extremos. No caso brasileiro, por exemplo, uma administração federal abertamente vinculada à extrema direita. Na Rússia, por outro lado, um governo extremista, mas que romantiza o passado soviético e se pretende guardião de um lugar supostamente natural da Rússia como superpotência. 

E é a extrema direita brasileira empoderada que cria uma forma de governar inédita na história do país. Independentemente de filiações ideológicas ou partidárias, a administração do presidente Jair Bolsonaro estabeleceu um padrão único: o Ministério do Meio Ambiente tem como principal inimigo, bom, o meio ambiente. O Ministério da Educação briga para justificar à sociedade a redução do orçamento da Educação. 

E de forma ainda mais ampla, os dados científicos são combatidos de maneira permanente quando não apresentam os resultados esperados pelo governo. Assim, democraticamente, a NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, e o INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, passam a inimigos do Estado, já que os dados colhidos por ambos acabam por alimentar críticas ao governo. 

Para ser justo, o processo que hoje ocorre no país não é unicamente um fenômeno brasileiro. O nacionalismo exacerbado está na raiz da explicação. Assim como ocorre em outras partes do mundo, o nacionalismo extremo polariza de forma proposital qualquer situação ou debate. 

Assim, adversários políticos passam a inimigos de Estado. Aí não basta derrotá-los, é preciso eliminá-los. A base de inimigos é bastante ampla. Não se trata apenas de buscar estigmatizar e lançar aos seus ferozes seguidores os membros de partidos políticos de oposição. Não, é muito além. Para entrar no rol dos inimigos, basta a discordância. 

No Brasil, a frente de "inimigos do Estado" aumenta a cada dia; hoje ela é formada pelos opositores, pela imprensa, pela academia universitária, pelas ongs, pelos artistas, pelos trabalhadores da área de cultura, pela França, pela imprensa estrangeira, pelos institutos de pesquisa, pelos movimentos sociais, pelos movimentos de igualdade de gênero, de raça, pelos movimentos em busca de defesa de direitos dos homossexuais, pelas minorias, pelas associações estudantis, pelos ex-filiados ao partido do presidente, pelos arrependidos de insuflar a polarização do MBL e por aí vai.  

Para justificar, toda sorte de teorias de conspiração. Segundo essas teorias, o Brasil é mais um campo de batalha da luta entre todos esses adversários e a pureza das famílias brasileiras que buscam defender seu modo de vida único diante da sanha do "globalismo" (em atuação por meio de todos os agentes listados no parágrafo anterior). 

Novamente para ser justo, este tampouco é um fenômeno unicamente brasileiro. Pelo contrário. Ele vem sendo aplicado com sucesso em todo o mundo. Era só uma questão de tempo até chegar aqui. Chegou. E está no poder em busca de replicar a lógica polarizadora que o elegeu.

Todos os episódios - e todas as discussões - são debatidos a partir desta lógica. Da divisão permanente. Do olhar desconfiado e implacável sobre os adversários, os "inimigos do Estado". Isso não vai terminar tão cedo. No Brasil, já não temos mais governo. Temos regime.