A disputa regional entre Irã e Israel: os fatores que garantem vantagem aos israelenses

30 de Agosto de 2019
Por Henry Galsky Num posicionamento raro, Israel admitiu ter realizado uma operação na Síria de modo a impedir um ataque iraniano com drones carregados de explosivos ao território do Estado judeu. As operações de Israel direcionadas a alvos do Irã ou seus aliados são relativamente comuns. Estima-se que já tenham ocorrido mais de uma centena de vezes. Mas é incomum que sejam admitidas publicamente. 

A mudança de posicionamento dá o tom de dias dramáticos na região. A guerra por procuração entre Irã e Israel tem aumentado a temperatura do Oriente Médio porque a disputa entre as duas potências militares apresenta duas narrativas que, especialmente sob o ponto de vista iraniano, são excludentes. 

Os iranianos não têm qualquer reivindicação sobre o conflito entre israelenses e palestinos. Não têm qualquer argumentação minimamente razoável sobre negociações territoriais, estabelecimento de fronteiras, assentamentos judaicos na Cisjordânia etc. A posição oficial do regime do Irã (no poder desde a Revolução Islâmica de 1979) é de que Israel não deve existir. Simples assim. 

Desde a Guerra Civil síria, iniciada em 2011, o Irã partiu em defesa do ditador Bashar al-Assad. Ao lado de Rússia, do exército sírio fiel a Assad, do Hezbollah libanês e de outras milícias xiitas, Teerã interpretou o desmantelamento do país como oportunidade de mais um passo em sua estratégia regional de estabelecimento de bases e da exportação de sua revolução ideológica. Mais ainda, entendeu que a situação também representava a chance de fincar grupos aliados ou mesmo membros de suas próprias forças militares de elite na fronteira com Israel, especialmente nas Colinas de Golan. 

O jogo então mudou. Não apenas os israelenses entenderam que o sucesso iraniano significaria uma ameaça existencial, mas as monarquias sunitas do Golfo seguiram o mesmo caminho. O regime iraniano representaria também um risco aos governos sunitas locais. Já escrevi sobre isso por aqui tantas outras vezes, mas considero importante apresentar o contexto mais amplo antes de seguir com a análise dos acontecimentos deste momento. 

Numa mudança estratégica importante, Israel ampliou o arco de seus ataques. Para conter as milícias xiitas aliadas ao Irã, o estabelecimento de bases iranianas e a transferência de armamento de Teerã ao sul do Líbano – reduto da milícia xiita Hezbollah –, Israel não se restringe mais a operações em território libanês, mas agora aumenta a incidência e o escopo de atuação; assim, nesta última semana, chegou a efetuar missões na Síria e no Líbano; em julho, há rumores de ter chegado até ao Iraque. 

Se antes o foco era restrito quase unicamente para impedir a transferência de armamento direto entre Irã e o Hezbollah, o objetivo israelense ampliado é conter qualquer movimentação que possa colocar em risco sua segurança. E neste aspecto a escala de avaliação engloba muitos movimentos: construção de centros de pesquisa para desenvolvimento de armas, bases de operações e, claro, a frustração de ataques iminentes. 

Foi o caso da operação de Israel na Síria no sábado, quando o Estado judeu lançou uma onda de ofensivas aéreas a membros das forças iranianas e seus aliados que, de acordo com a posição israelense, estariam prestes a sobrevoar Israel com drones carregados de explosivos. A operação israelense impediu a concretização do projeto. Este foi o episódio em que as autoridades de Israel assumiram publicamente a autoria do ataque. 

Horas depois, drones supostamente do país também foram direcionados ao bairro xiita de Dahieh, no sul do Líbano, e tiveram como alvo escritórios do Hezbollah. O presidente libanês, Michel Aoun, chegou a dizer que o ataque correspondia a uma declaração de guerra. É sempre importante dizer que a milícia xiita libanesa é parte integrante da sociedade do país. Além das atividades terroristas, também se encarrega de ajuda social e está representada no parlamento. Depois da Segunda Guerra do Líbano, em 2006, Israel não faz distinção entre o estado libanês e o grupo terrorista. 

Hoje, Israel encara diversas frentes e recebe o apoio silencioso das monarquias sunitas do Golfo, que ainda não mantêm relações diplomáticas com o país. Para os governantes sunitas regionais, como Israel é o alvo prioritário deste eixo xiita em busca de expansão, é positivo que os israelenses continuem a impedir o sucesso do Irã e de seus aliados. A guerra aberta entre a Arábia Saudita e a milícia xiita houthi no Iêmen é outro capítulo ativo desta disputa no Oriente Médio. 

Evidentemente, é difícil imaginar que Israel conseguirá sustentar sua estratégia de contenção sem receber qualquer contra-ataque. No entanto, o fator tecnológico é decisivo, e a capacidade israelense de antecipação, espionagem e seu desenvolvimento não pode ser desprezada. É ela que iguala a situação. 

Aos poucos, na medida em que os acontecimentos recentes começam a ser revelados, fica claro que, embora em absoluta desvantagem territorial e numérica, Israel continua a equilibrar o jogo regional. 

Por exemplo, de acordo com veículos israelenses e estrangeiros, o ataque realizado por meio de drones ao Hezbollah em Beirute teria obtido sucesso ao incapacitar uma máquina de mistura de alto custo cujo objetivo era o de produzir combustível sólido. A operação de Israel teria conseguido adiar por pelo menos mais um ano os planos do grupo terrorista de desenvolvimento de mísseis precisos de longo alcance. 

Ao mesmo tempo, o jornal Haaretz revela que empresas de tecnologia da área de Defesa de Israel conseguiram desenvolver um sistema capaz de assumir o controle pleno de drones inimigos de forma a impedir este tipo de ataque, pousando-os em segurança para que os israelenses consigam ainda analisar informações dos equipamentos inimigos.