Análise sobre a disputa entre Hezbollah e Israel

06 de Setembro de 2019
Por Henry Galsky As narrativas de guerras e confrontos sempre levaram em consideração o impacto causado sobre as próprias populações e as do inimigo e, acima de tudo, sobre as convicções dos responsáveis pelo processo de tomada de decisão do lado oposto. O episódio de enfrentamento ocorrido no domingo entre Hezbollah e Israel representa um exemplo bastante interessante desta lógica e de como ela se aplica hoje no mundo da pós-verdade. 

O ponto inicial diz respeito ao que se sabe. As forças do Hezbollah dispararam mísseis antitanque que alvejaram um veículo militar do lado israelense da fronteira. Enquanto o grupo terrorista comemorava, Israel contra-atacou no sul do território libanês, bombardeando cerca de cem posições no reduto do Hezbollah. 

Pode parecer simples, mas esta rodada de hostilidades – que aparentemente terminou – recebeu dois olhares distintos; o primeiro deles, do Hezbollah, afirma que o ataque com os mísseis foi capaz de deixar soldados de Israel mortos ou feridos. A versão de Israel é diferente; vídeos e imagens de soldados feridos seriam parte de uma manobra para enganar o Hezbollah. 

O ponto fundamental em torno deste caso é que, tanto o secretário-geral da milícia xiita, o xeque Hassan Nasrallah, quanto o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, procuraram ampliar os ganhos porque ambos não parecem interessados em aprofundar as hostilidades. Hezbollah e Israel têm, igualmente, muito a perder se houver um enfrentamento de mais longa duração. 

Em 2006, os dois atores travaram uma guerra que durou 34 dias. A infraestrutura do grupo terrorista foi muito danificada e, de lá para cá, a real conquista do Hezbollah foi a subida de patamar. Na política e na vida militar, a milícia xiita é hoje, de forma inquestionável, parte da sociedade libanesa de maneira ampla. Mas, como disse no último episódio do podcast Zona de Fronteira, este é um aspecto que, por outro lado, pode ser considerado uma ameaça. Autoridades israelenses já declararam publicamente em diversas oportunidades que a normalização do Hezbollah e sua presença no governo representam uma mudança na postura oficial de Israel: num eventual próximo conflito, os israelenses não farão distinção entre a estrutura da milícia xiita e a estrutura do estado libanês. 

Isso quer dizer que uma guerra entre Hezbollah e Israel será interpretada em Jerusalém como uma guerra contra o Líbano, o que pode ser um fator de pressão interno importante da sociedade libanesa sobre a milícia xiita. 

Por parte de Israel, levando-se em consideração as eleições marcadas para o próximo dia 17 de setembro, o primeiro-ministro Netanyahu não parece interessado em aprofundar enfrentamentos militares na iminência de resolver o impasse político que se arrasta internamente desde maio. O governo atual é de natureza formal transitória até que o próximo primeiro-ministro – que pode ser o próprio Netanyahu – consiga finalmente formar uma coalizão com ao menos 61 membros do Knesset, o parlamento do país. 

Sobre o episódio de escalada com o Hezbollah, Netanyahu também apontou o sucesso da estratégia adotada, dizendo em vídeo que o país agiu “com determinação e responsabilidade, mantendo a segurança dos cidadãos e o bem-estar dos soldados”. 

Por fim, é importante deixar claro que, considerando o objetivo declarado do Hezbollah de ferir ou matar os soldados de Israel, os israelenses levaram a melhor. Por mais que a milícia xiita libanesa insista em afirmar ter alcançado seu objetivo, isso não ocorreu. Apesar da disputa narrativa e de informação, não houve soldados israelenses mortos ou feridos. 

Em primeiro lugar, quando um soldado é morto, há grande cobertura jornalística e comoção da sociedade (a maioria da população serve nas forças do país e há enorme identificação com pais que perdem filhos em combate). Em Israel não há soldado morto ou ferido cujo fato não tenha sido divulgado ou, pior, tenha sido omitido. Além disso, há imprensa atuante e livre no país. Seria impossível que esta situação (absolutamente relevante em qualquer tempo, ainda mais num período eleitoral) fosse escondida a ponto de nenhum jornalista de nenhum veículo do país tê-la descoberto – e a escalada entre Hezbollah e Israel foi objeto de extensa cobertura e análise por parte de todos os veículos da imprensa local. 

A insistência do Hezbollah em reivindicar sucesso mostra exatamente o desinteresse do grupo em buscar um confronto mais amplo com Israel neste momento. Pode ser que esta decisão se altere no futuro, mas, por ora, este é o sinal que a milícia xiita deixa registrado. Por outro lado, caso insista na produção de mísseis de precisão, é certo que Israel irá retomar as operações contra as forças do grupo no Líbano. Esta é a linha vermelha dos israelenses.