Benjamin Netanyahu anuncia que, se eleito, irá anexar assentamentos

10 de Setembro de 2019
Por Henry Galsky O pronunciamento dramático que o primeiro-ministro de Israel havia anunciado e criou expectativa a uma semana das eleições teve como objetivo a formalização do projeto de anexar os assentamentos da Cisjordânia. Segundo ele, o processo será iniciado a partir dos assentamentos localizados no Vale do Jordão (a parte mais à direita do território, acima do Mar Morto) sem que nenhum palestino seja anexado e garantindo aos palestinos liberdade total de movimentação. Mas, de acordo com Benjamin Netanyahu, o discurso só se transformará em realidade após as eleições e, claro, se ele conseguir formar um governo, o que não ocorreu em maio deste ano, provocando o novo pleito em curso. 

"Isso é democracia. Não farei nada sem um mandato claro. Por isso peço o mandato, para fazer isso (a anexação) que usufrui de grande consenso, para definir finalmente as fronteiras permanentes de Israel, para prometer que a Judeia e a Samária (como os judeus chamam a Cisjordânia) não se transforme em Gaza. Este mapa define a nossa fronteira oriental. Não temos este tipo de oportunidade desde a Guerra dos Seis Dias (em 1967), e poderemos não ter esta oportunidade novamente nos próximos 50 anos", disse. 

A Cisjordânia é dividida em três áreas segundo os Acordos de Oslo assinados entre israelenses e palestinos em 1993/1994: A, B e C. Na Área C, vivem cerca de 150 mil palestinos e 300 mil judeus. Na Área A, os palestinos são responsáveis pela segurança e por controle administrativo. Na Área B, os israelenses mantêm controle da segurança, mas os palestinos também mantêm autonomia administrativa, chegando a deter a segurança de algumas porções de território. Na Área C, Israel mantêm a segurança e o controle administrativo. 

Cerca de 90% da região conhecida como Vale do Jordão - o ponto inicial do processo anunciado por Netanyahu - está localizada na Área C, setor que as negociações já estabeleceram como de controle israelense. No Vale do Jordão vivem aproximadamente 11 mil judeus. 

Há questões a serem explicadas a partir da declaração. O primeiro ponto é o paralelo em relação a Gaza. Depois que em 2005 o então primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon deixou de forma unilateral o território, Gaza se transformou num foco de instabilidade permanente. Em 2007, dois anos depois da retirada israelense, o Hamas expulsou a Autoridade Palestina (AP, o governo palestino reconhecido por Israel e pelo restante da comunidade internacional) e passou a ser o governo de fato. 

Desde então, Israel e o Hamas já travaram três guerras (2008/2009, 2012 e 2014) e há episódios de retaliação por parte de Israel a partir dos frequentes lançamentos de mísseis pelo Hamas sobre o sul do território israelense. Não há num futuro breve qualquer possibilidade de estabilização de Gaza. Este é um dos panos de fundo da declaração do primeiro-ministro. É a este imaginário dos cidadãos de Israel que ele apela para anunciar seus planos. Como 60% da população do país vive no centro e é nesta parte do país onde se localizam as maiores empresas e centros urbanos, imaginar a Cisjordânia se transformando em Gaza poderia ter um efeito muito mais problemático para o funcionamento prático de Israel. 

A questão é que não há no horizonte nenhuma tendência de que isso venha a ocorrer. O controle militar de Israel e mesmo a cooperação com as forças de segurança oficiais palestinas mantêm a situação estabilizada de certa forma. A barreira de segurança construída pelos israelenses reduziu atentados suicidas dentro das fronteiras a praticamente zero. Hoje, há episódios pontuais de terrorismo palestino - com esfaqueamento de civis israelenses, por exemplo - no interior justamente da Cisjordânia. 

Há outros aspectos políticos importantes. Por exemplo, é na Cisjordânia e em Gaza que todos os acordos de paz assinados entre israelenses e palestinos previam a criação de um estado palestino. A decisão de Netanyahu, se realmente levada adiante, apresenta, portanto, perspectivas pouco animadoras em relação a este projeto - o destino final das negociações de paz iniciadas pelos Acordos de Oslo de 1993/1994. Certamente, o anúncio vem acompanhado de críticas internacionais. 

Ao mesmo tempo, faltando uma semana para as eleições, Netanyahu quer aprofundar a diferença ideológica em relação a adversários de centro, centro-direita e, claro, centro-esquerda do espectro político. A ideia do primeiro-ministro é justamente a de se apropriar do discurso mais à direita de forma a angariar os votos projetados para os partidos deste campo. 

Como na eleição passada o sistema de coalizão acabou por impedir a formação do governo - novamente, como expliquei, precipitando a nova votação do próximo dia 17 - o primeiro-ministro quer ficar menos dependente dos demais partidos. E, segundo este pronunciamento, ele pretende ganhar força retirando votos dos partidos mais à direita, centralizando votos no Likud, o seu partido, e, assim, imagina que obterá mais cadeiras no Knesset, o parlamento do país. 

No final das contas, há um risco nessa situação; se eleito, a tendência de um governo que eventualmente venha a anexar os assentamentos é estar mais isolado na comunidade internacional porque a proposta de dois estados  - que sempre foi a base das negociações de paz - é uma ideia relativamente consensual.