Ataque à Arábia Saudita: desdobramentos para além do Oriente Médio

16 de Setembro de 2019
Por Henry Galsky Apesar de apontar para um caminho de enfrentamento militar ainda mais intenso, o ataque dos chamados "rebeldes" houthis a instalações petrolíferas sauditas pode marcar o início do fim da guerra no Iêmen. Assim como já aconteceu no Oriente Médio com o Hezbollah, no Líbano, os houthis parecem interessados em subir de patamar. 

E, com a aprovação de seus patrões no Irã (onde os houthis já contam com uma embaixada na capital do país), podem inclusive se engajar em negociações diretas até com os norte-americanos. Se isso se confirmar, existe a possibilidade real de mais uma vitória iraniana em suas pretensões hegemônicas regionais. Ao mesmo tempo, os iranianos poderiam iniciar um processo de retomada das relações com as monarquias sunitas do Golfo, inclusive com os sauditas que, desde 2015, se empenharam - sem obter sucesso claro - em capitanear a guerra em curso cujo objetivo era justamente impedir a influência iraniana no Iêmen, como escrevi por aqui outras tantas vezes. 

O jornalista Zvi Bar'el, do Haaretz, faz essa mesma análise, ampliando os efeitos de eventual sucesso num processo de pacificação aos dois grandes adversários regionais Irã e Arábia Saudita: 

"Tal resultado (a aproximação entre ambos os atores) certamente seria interpretado como sucesso aos houthis e ao Irã. Mas também libertaria a Arábia Saudita de uma guerra que custa dezenas de bilhões de dólares. Isso poderia melhorar a posição de Riad em Washington, onde (a Arábia Saudita) é considerada pária, dando fim a uma batalha entre o Congresso (norte-americano) e o presidente Trump em relação a venda de armas (ao país)", escreve. 

Ou seja, interromper a guerra no Iêmen agora - mesmo que isso signifique vitória clara sob o ponto de vista da estratégia regional iraniana - pode servir não apenas aos propósitos do Irã, naturalmente, mas também de seus principais adversários, os sauditas. E este é um ponto importante porque é o tipo de situação muito rara - além de possuir implicações geopolíticas para além das fronteiras do Oriente Médio. 

O presidente Donald Trump está se empenhando em costurar acordos internacionais. Está certamente mais interessado neste momento em velocidade do que em qualidade. Assim como considera vitorioso o engajamento que obteve com a Coreia do Norte (mesmo que os resultados da aproximação ainda estejam por vir), pretende adotar o mesmo modelo de maneira ampla: com o grupo Talibã, no Afeganistão, com os houthis, no Iêmen, e, acima de tudo, com o Irã. 

A cada dia que passa fica mais evidente que a mudança de perfil (ou de necessidade) de Trump foi a razão da saída de John Bolton do governo. De acordo com reportagem publicada pelo site Bloomberg no último dia 11, o ex-conselheiro de Segurança Nacional e o presidente divergiam quanto à possibilidade de flexibilizar as sanções ao Irã de forma a garantir um encontro entre Trump e o presidente iraniano, Hassan Rouhani. 

Não é segredo o quanto Trump busca esse encontro com Rouhani. Não apenas em função de sua rivalidade permanente com o antecessor Barack Obama, mas também porque mira nas eleições do ano que vem, quando precisará derrotar o candidato democrata. Mesmo que este processo ainda esteja no início, as pesquisas de opinião mostram redução de aprovação do presidente Trump, e, ainda mais grave a ele, apontam derrota no Texas, tradicional reduto dos republicanos (hoje, seria derrotado por Joe Biden, Bernie Sanders e Elizabeth Warren). 

O presidente corre então para assegurar alguma vitória internacional, mesmo que seja uma sensação de vitória. Vale a imagem, vale quebrar o gelo inicial. Nada seria melhor do que iniciar uma aproximação com um adversário tão resistente quanto o Irã. Mas, evidentemente, os iranianos sabem disso. Não querem colocar azeitona na empada da campanha eleitoral de Trump. Este é o embate do momento: ou Trump vai aprofundar a pressão sobre o Irã para obter o que quer convencendo, desta forma, o regime em Teerã ou os iranianos vão segurar o máximo que puderem à espera de uma vitória democrata nas eleições de novembro de 2020. 

O ataque com os drones (ou mísseis, como sugeriram os EUA) está imerso neste grande cenário de disputa internacional.