Na ONU, Bolsonaro homenageia o Movimento

25 de Setembro de 2019
Por Henry Galsky Eduardo Bolsonaro, o filho do presidente e escolhido por ele para ser embaixador em Washington, reuniu-se com Steve Bannon na segunda-feira, dia 23 de setembro, em Nova Iorque. Além de embaixador nos EUA, Eduardo foi escolhido também por Bannon para liderar o Movimento na América do Sul. O Movimento pretende formar lideranças nacionalistas e conservadoras de direita em todo o mundo. Eduardo Bolsonaro pode ser ao mesmo tempo embaixador do Brasil nos EUA e embaixador do Movimento na América do Sul. 

O presidente Jair Bolsonaro pronunciou na terça-feira, dia 24 de setembro, o aguardado discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. Havia dúvidas se, em função de seu estado de saúde, Bolsonaro faria o pronunciamento. Não apenas falou por meia-hora, mas reafirmou boa parte do discurso vitorioso que embalou sua campanha presidencial e que tem se repetido ao longo do mandato. No foco, a visão sobre os demais países - em especial a suposta ganância internacional em busca das riquezas da Amazônia -, o modo como se percebe protagonista na luta contra a tomada do país pelo "socialismo", a ideia de que a intenção da "mídia" é desqualificar seu governo, e, claro, a pauta da defesa da família. 

O termo "Globalismo" ganhou força, legitimidade e adesão de governos importantes ao redor do mundo – o mais importante deles, o governo americano – graças em boa medida a Steve Bannon, ex-editor do site Breitbart News, ex-estrategista chefe de Donald Trump e responsável diretamente por dar forma e peso a este novo movimento político que ele mesmo passou a chamar de direita alternativa (apenas “Alt-Right”, em inglês). 

Para Bannon e seus correligionários, a humanidade está ameaçada por uma elite global que planeja destruir a pureza do patriotismo, da família e do cristianismo por meio da promoção de valores internacionalistas que incentivam ondas de imigração desenfreadas aos países desenvolvidos, o temor a mudanças climáticas (que para a nova extrema direita é apenas uma narrativa mentirosa para ameaçar os empregos nacionais), a integração entre mercados, o Acordo Transpacífico, a União Europeia, a agenda LGBT, entre outros. 

A luta contra o globalismo escolheu seu vilão prioritário:  George Soros, o judeu húngaro que emigrou para os EUA depois da Segunda Guerra Mundial e tem histórico de atuar na promoção de valores liberais democráticos e progressistas na Europa Oriental e nos EUA. 

Soros é o vilão preferido de regimes marcados pelo nacionalismo e pela rejeição ao liberalismo, como a própria Hungria, além de Polônia, República Tcheca e outros. Mas, em função do antissemitismo com o qual o movimento flerta em maior ou menor grau, a personificação do ódio ao Globalismo em Soros também se manifesta em regimes como Turquia, Irã e Rússia. A narrativa em torno do Globalismo está imersa de antissemitismo. É a versão atualizada de Os Protocolos dos Sábios de Sião.

"Prazer encontrar hoje com Steve Bannon e conversar, dentre outros temas, sobre como a Amazônia é usada pelo establishment internacional (globalistas) para atacar o Brasil e o Presidente Bolsonaro. O interesse não é em cuidar dos índios ou da floresta e sim em construir a narrativa para amanhã pleitear - mais uma vez - a sua internacionalização. Ninguém preserva mais do que o Brasil, existem interesses por trás desse discurso 'paz e amor' de alguns chefes de Estado", publicou Eduardo Bolsonaro em seu insta. 

E aqui destaco o trecho do discurso de Jair Bolsonaro na ONU:

"Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um “interesse global” abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global. É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer", disse. 

George Soros não é o único vilão eleito pelo antiglobalistas alinhados à extrema direita. Barack Obama, Hillary Clinton, Emmanuel Macron e Angela Merkel são outros exemplos. O projeto de tornar consensual a ideia de que existe uma conspiração globalista é um trabalho ainda em construção. É um processo para lá de difuso, mas que cada vez se manifesta com mais desenvoltura. 

"(O movimento) contra o Globalismo forma uma rede muito eficiente para unir partes distintas da direita - da convencional à extrema. É o folclore e a narrativa que definem a direita racista", disse Brian Levin, diretor do Centro para Estudos de Ódio e Extremismo da Universidade do Estado da Califórnia em entrevista de novembro de 2016 ao New York Times. 

O discurso de Bolsonaro na ONU acabou por prestar - direta ou indiretamente - uma homenagem ao Movimento, a seus membros em todo o mundo, a seu fundador Steve Bannon e a seu futuro embaixador na América do Sul.