A importância das eleições nos EUA em 2020

08 de Outubro de 2019
Por Henry Galsky Na semana passada, escrevi sobre o impeachment de Trump. Pelos comentários recebidos, acho importante esclarecer que este é um processo que se encontra em curso, não se trata, portanto, de como eu vejo a situação. Dito isso, vale examinar como o presidente norte-americano interpreta a denúncia do agente da CIA, o informante que iniciou o movimento. 

Para Donald Trump, o denunciante é um traidor nacional. Aliás, esta definição se encaixa com perfeição no modo como líderes nacionalistas exacerbados classificam opositores. Há um episódio em meu podcast Zona de Fronteira inteiramente dedicado a isso. As lideranças nacionalistas - cada vez mais difundidas ao redor do mundo, inclusive no Brasil - tratam qualquer dissonância como traição. Não apenas pessoal, mas traição à pátria. 

Nesta classficação absolutamente superficial, estão listados não apenas opositores tradicionais em regimes democráticos (como adversários políticos, algo bastante natural), mas também a suprema corte - quando segue caminho distinto ao pretendido por essas lideranças - e a imprensa, por exemplo. 

O nacionalismo de forma isolada não é necessariamente perigoso. Até porque, como analiso no podcast, é a ideia de estado e sua construção imaginária que permitem a solidariedade ao estraho. É essa ideia que nos permite entender a lógica a justificar o recolhimento de impostos e sua alocação para a construção de estradas e de hospitais em cidades onde nunca estivemos e que serão usados por pessoas que jamais conheceremos. Este é um efeito positivo e prático do nacionalismo e que está na base do conceito de Estado-nação. 

Os líderes nacionalistas exacerbados - em posição de comando em parte relevante das democracias atualmente - incentivam os conflitos internos a partir de uma visão particular sobre a natureza do Estado. Ou seja, o Estado e os verdadeiros patriotas "só existem ou são considerados como tal enquanto concordam comigo ou estão ao meu lado". 

Portanto, tudo o que ameaça esta visão muito particular do "meu" próprio grupo político e da "minha forma" de ver o mundo, os costumes, a religião, a pátria é interpretado como ameaça ao Estado nacional. Aumentar a divisão interna estigmatizando os adversários como traidores da nação – imprensa, suprema corte, partidos rivais, grupos que pensam diferente - é uma ameaça a um dos pilares mais fundamentais do próprio conceito de Estado-nação: a solidariedade ao estranho, como escrevi acima. 

E foi exatamente essa estigmatização a que Trump recorreu para se defender no processo de impeachment; em evento fechado com membros da Missão Norte-americana na ONU, o presidente  disse que "nos velhos tempos" os episões eram tratados de outra maneira. O recado está claro. 

O agente da CIA alocado na Casa Branca - responsável pela denúncia de que Donald Trump pressionou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a investigar o pré-candidato democrata Joe Biden - passou a ser considerado um traidor nacional. E o presidente Donald Trump deixou claro que tipo de punição ele consideraria justa ao agente que o denunciou. Trump se encaixa com perfeição no modelo de líder nacionalista exacerbado que tem se perpetuado ao redor do mundo. As eleições de 2020 nos EUA colocam essa discussão na pauta do dia da maior potência planetária.