Donald Trump ordena retirada das tropas e Turquia invade a Síria

10 de Outubro de 2019
Por Henry Galsky Enquanto a Turquia lança mais uma operação contra os curdos no nordeste da Síria, não consigo deixar de me lembrar de uma expressão em língua inglesa que traduz com exatidão este momento: os EUA jogaram os curdos embaixo do ônibus. Traduzida ao português, o sentido é o mesmo; largar à própria sorte, abandonar completamente, colocar alguém em situação muito difícil. Este é o resultado de mais uma decisão internacional do presidente Donald Trump. Mais um erro estratégico em sua atuação no Oriente Médio. 

No ano passado, quando a Turquia realizou a operação "Ramo de Oliveira" em Afrin, no noroeste da Síria, trezentas mil pessoas foram deslocadas e dois mil e seiscentos terroristas (segundo a Turquia) foram mortos. Na verdade, os combates ocorreram porque as forças turcas pretendiam expulsar ou elimininar da fronteira turco-síria os membros da chamada YPG, as Unidades de Proteção do Povo Curdo. 

Novamente, depois de conversa telefônica com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, Trump não se opôs à operação cujo propósito é também eliminar a presença local das Forças Democráticas Sírias (SDF), um exército árabe-curdo estimado em 60 mil pessoas e, assim como o YPG, diretamente responsável por conquistas territoriais e importantes vitórias sobre o grupo terrorista Estado Islâmico (EI). 

A Turquia pretende criar um corredor de 32km de extensão e 480km de largura na Síria, justamente no norte do país onde os curdos conseguiram estabelecer uma região relativamente autônoma. O projeto também inclui a realocação de 1 milhão do total de 3,6 milhões de refugiados sírios que hoje vivem em território turco - possivelmente, substituindo a população curda desta região norte da Síria. O ambiente para um confronto aberto entre as forças turcas e curdas está criado. 

Para além desta questão específica, é importante examinar também as consequências regionais. O primeiro aspecto é bastante simples: os curdos foram até agora os principais aliados dos EUA na luta contra o EI. O SDF perdeu 11 mil soldados nas batalhas contra o grupo terrorista. Ao jogar os curdos embaixo do ônibus, Washington levanta o questionamento de fidelidade a seus aliados. Agora, depois do anúncio da decisão de Donald Trump, por que outros grupos ou países haveriam de firmar parcerias militares com os norte-americanos no Oriente Médio? Esse tipo de reflexão pode ter consequências em toda a região, em especial em países instáveis, como Iraque e Afeganistão, além da própria Síria, claro. 

Ao mesmo tempo, a retirada norte-americana também evidencia um movimento em curso por parte do presidente Donald Trump; o desinteresse pelas questões internacionais. Para ser justo com o atual presidente, desde que Barack Obama entendeu que a atuação do país no pós-Primavera Árabe requeria outra abordagem, os EUA perderam espaço na região. A entrada da Rússia na guerra civil síria em setembro de 2015 consolidou a mudança de paradigma. 

Hoje, é Moscou, e não Washington, o principal mediador no Oriente Médio. O presidente russo, Vladimir Putin, é, na prática, a única liderança a ter acesso a todas as demais. Putin é o único capaz de tratar pessoalmente com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, com o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Putin é o intermediário entre todos, inclusive estabelecendo limites de atuação entre alguns deles na Síria. 

A alteração de pilares importantes da política externa norte-americana satisfaz ao presidente russo e está de acordo com o que se esperava do então candidato Donalad Trump. Em sua campanha presidencial, Trump considerava que os EUA deveriam cortar custos em empreitadas internacionais, economizando recursos dos impostos dos cidadãos e prometendo maior foco em questões políticas e econômicas domésticas. Nem em seus melhores sonhos russos e iranianos poderiam imaginar que os norte-americanos abandonariam tão rapidamente a forma de atuação internacional do país. No caso sírio, os turcos também são beneficiários das decisões de Trump, como se vê. 

E, como a disputa narrativa se segue às determinações políticas, a administração em Washington já preparou o discurso de justificativa tendo como base as diretrizes de campanha do presidente: 

"Qualquer pessoa que busque caracterizar o fato de que o presidente esteja cuidando para garantir que nossos soldados, marinheiros, aviadores e fuzileiros navais fiquem seguros como um sinal verde para um massacre (dos curdos) é irresponsável e não retrata a realidade da situação", disse um oficial sênior do governo. A declaração é mal construída sob aspecto linguístico, mas o fundamental é entender que a ideia é transformar a posição de Trump em compromisso com as próprias forças de segurança e com o orçamento governamental. Até porque política externa não é de fato um assunto relevante ao cidadão norte-americano médio (assim como ocorre na maior parte dos países). 

Mais ainda, como escrevi, reafirmar que o presidente pretende poupar recursos financeiros e a vida de soldados do país reforça alguns dos compromissos fundamentais da campanha de Trump. Faltando pouco mais de um ano para novas eleições presidenciais, a narrativa do presidente-candidato já está em construção. Pior para os aliados internacionais.