Graças a Washington, os russos alcançam seus objetivos na Síria

16 de Outubro de 2019
Por Henry Galsky Continuando a avaliação inicial dos impactos da decisão de Trump de retirar as tropas norte-americanas da Síria, já podemos por ora apresentar os vencedores deste processo. Sim, mesmo em se tratando de um acontecimento recente, já há vencedores. 

O principal deles, sem nenhuma dúvida, é a Rússia. Para ser mais específico, seu presidente, Vladimir Putin. Quando decidiu entrar de cabeça para salvar os ativos do país na Síria - garantidos pelo histórico de relacionamento com a família Assad -, o líder russo não poderia imaginar que no curtíssimo espaço de tempo um presidente norte-americano tão generoso com o projeto internacional de Moscou ocuparia o Salão Oval. 

Para o Kremlin, a aposta e as ações que resultaram na eleição de Donald Trump valeram muito a pena. Ninguém foi capaz de desmontar o histórico das relações internacionais dos EUA e a presença norte-americana no Oriente Médio com tamanha competência quanto o atual presidente do país. A figura que apresentei em meu texto mais recente - de que os curdos estavam sendo jogados para debaixo do ônibus - pode servir também aos aliados mais tradicionais dos norte-americanos na região - Israel e Arábia Saudita, por exemplo. 

Sauditas e israelenses ainda não mantêm relações diplomáticas, muito embora o contato de bastidores entre os dois atores tenha se intensificado nos últimos anos. Ambos têm um inimigo comum: o Irã e seu plano de hegemonia regional. No caso de sauditas e israelenses, o Irã é mesmo adversário militar. Aos sauditas, uma realidade em curso dado a guerra que travam com as milícias xiitas houthis - apoiadas pelos iranianos - desde 2015. 

Vale fazer um aparte importante em relação a este conflito. Estima-se que 250 mil pessoas tenham sido deslocadas e quase cem mil tenham morrido. De acordo com projeções da ONU apresentadas em abril deste ano, caso não haja um cessar-fogo, o número de mortos pode alcançar a marca de 233 mil até o final de 2020. A guerra entre sunitas e xiitas no Iêmen também resultou em mais um dado trágico: do total de 24 milhões de iemenitas, cerca de 14 milhões enfrentam uma gravíssima crise de fome e a maior epidemia de cólera em todo o mundo.

A situação israelense em relação ao Irã ainda não atingiu o ápice. Os iranianos não deixam de manifestar publicamente e sem qualquer preocupação o interesse em "destruir", "varrer do mapa", "apagar" o Estado judeu, ferindo inclusive princípios fundamentais da Carta de Fundação das Nações Unidas - em especial e de forma explícita o item 2 do artigo I do capítulo I: "Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal"; também vale ressaltar o item 4 do Artigo 2 do mesmo capítulo I: "Todos os membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas".

A estratégia iraniana para atingir seus objetivos em relação a Israel e ao projeto de hegemonia regional capaz de estender suas ações livremente entre Teerã e o Mar Mediterrâneo inclui o estabelecimento de bases militares ao redor do território israelense. Quando os norte-americanos deixam a Síria, a capacidade de Teerã de seguir adiante depende única e exclusivamente de a) vontade própria; b) do interesse dos russos de frear o movimento de seus aliados; c) de Israel tomar a iniciativa - o que já vem ocorrendo - de, vez por outra, realizar ações militares de forma a destruir bases, equipamentos e centros de produção de armamentos. 

Desde 2015, quando, como escrevi, a Rússia entrou de cabeça na Síria em defesa da manutenção do ditador Bashar al-Assad na presidência do país, Moscou tinha como um de seus objetivos mais relevantes impedir a fragmentação síria. Cheguei na época a escrever sobre a possibilidade da criação de uma espécie de federação que, inclusive, poderia dar aos curdos alguma forma de autonomia na região norte. Os sírios-curdos se aliaram aos norte-americanos na luta contra os terroristas do Estado Islâmico (EI) mirando tal resultado. 

Quatro anos depois de entrar na guerra civil, a Rússia reverteu esta expectativa. E agora, com a decisão de Trump, ratifica seu dois objetivos iniciais: a) manter Bashar al-Assad na presidência; e b) manter a integralidade do território sírio sob comando de Assad em Damasco. A Casa Branca facilitou este caminho porque ao jogar os curdos embaixo do ônibus eles passaram a não contar com mais ninguém para impedir o sucesso da ofensiva turca em curso. E adivinhem a quem os curdos precisaram apelar por proteção? Claro, às tropas sírias de Bashar al-Assad, o presidente-ditador mantido no cargo graças à intervenção militar russa. Fim do ciclo. 

Por fim, ao abandonar os curdos, Trump também contribui para o retorno do poderio do EI. De acordo com as as Forças Democráticas Sírias (SDF), grupo militar curdo, a invasão turca obriga que seus militares sejam deslocados para combate. Como resultado desta movimentação e do caos que pode se instalar na região, é possível que 11 mil membros do EI presos e sob guarda das SDF terminem por fugir. A verdade é que as vitórias do EI nunca estiveram no centro da preocupação estratégica da Turquia. Ao contrário dos curdos, fonte permanente de tensão do governo de Ancara.