No Líbano, protestos populares colocam o Hezbollah em posição desconfortável

31 de Outubro de 2019
Por Henry Galsky As manifestações no país apresentam novidades que tem poder de transformação externa e regional. A primeira delas diz respeito à sobreposição das muitas divisões internas; muçulmanos sunitas e xiitas, druzos e cristãos de diversas correntes estão unidos contra as autoridades. 

Além disso, não há, por ora, a velha narrativa do inimigo externo. Dessa vez, o Hezbollah, grupo terrorista que atua também na esfera política e social, não conseguiu convencer a população de que há uma manobra de Israel em curso. Pelo contrário. Há oposição da própria população xiita contra o Hezbollah. A visão histórica da milícia xiita de que seus embates com Israel são também conquistas dos cidadãos comuns não conseguiu se sobrepor às manifestações nas ruas. 

Talvez a renúncia do primeiro-ministro Saad Hariri, rival tradicional do Hezbollah, tenha como um dos objetivos justamente entregar o problema a seus principais adversários. Fortalecido politicamente desde 2016, o Hezbollah construiu alianças que asseguram poderio muito mais representativo dos que os três ministérios que ocupa no governo (Saúde Pública, Juventude e Esportes e Assuntos Parlamentares). O grupo é governo. E esta posição exige de seus membros que encontrem também soluções e caminhos para os muitos problemas domésticos. 

Dos cerca de 6,8 milhões de libaneses, a estimativa é que 1,5 milhão corresponda a refugiados da guerra civil síria. Há um milhão de pobres e mais 200 mil pessoas foram acrescentadas a este extrato social. Há projeções de que 300 mil libaneses fiquem desempregados - a maior parte, jovens com pouca formação educacional. O crescimento do PIB em 2018 foi de apenas 0,2%. As reservas internacionais do Líbano - uma espécie de seguro financeiro para períodos de choque - caíram 2,3 bilhões de dólares, chegando a 39,7 bilhões. Os dados são do Banco Mundial. 

Como comparação, as reservas brasileiras são de cerca de 380 bilhões de dólares. Evidentemente que as economias dos dois países são muito distintas, mas vale a ressalva porque a apresentação deste dado ajuda na contextualização. 

Há 11 bilhões de dólares de ajuda externa congelados aguardando a aprovação de reformas. 

O descompasso entre o governo e a população está na origem das manifestações das ruas. Assim como ocorreu no Chile - onde o detonador pode ter sido o aumento da passagem de metrô - é claro que os libaneses não estão nas ruas tão somente em virtude do anúncio de que haveria impostos sobre ligações telefônicas realizadas por WhatsApp. As demandas são muitas, mas é possível interpretar que existe grande interesse de queda do governo e substituição por tecnocratas capazes de olhar o país sob prisma mais pragmático. 

No quadro regional mais amplo, é importante também acompanhar como os demais atores vão reagir. O principal patrocinador e parceiro do Hezbollah, o Irã, certamente não vai assistir sem reação caso o Líbano siga por um caminho que contrarie, atrapalhe ou prejudique de alguma maneira anos de investimento financeiro, de inteligência e militar. Não por acaso os iranianos procuram desde já divulgar a narrativa de que as manifestações ocorrem por influência de Israel e Arábia Saudita - os dois principais inimigos do regime de Teerã. 

O Hezbollah tampouco está confortável com a situação. Não apenas porque o grupo não é de nenhuma maneira uma força habituada a questionamentos - menos ainda grandes demonstrações democráticas da população comum -, mas também porque a construção de alternativas sociais e econômicas não está em sua gênese. Assim como ocorre no Iraque - onde o governo simplesmente optou por abrir fogo diretamente contra as manifestações -, é possível que este seja o ímpeto do Hezbollah. Mas, como em cerca de 40 anos a milícia se apresenta como organização de "resistência popular", é difícil para sua liderança experimentar uma posição como a atual; a de defesa de um governo impopular do qual é protagonista.