As razões que explicam a situação de impasse em Israel

06 de Novembro de 2019
Por Henry Galsky Para os que não têm acompanhado, é preciso lembrar: ainda não há um novo governo em Israel. Por mais que a atenção no Oriente Médio não esteja voltada ao país, o processo e o impasse continuam. 

No momento, o foco regional se concentra basicamente em duas arenas complexas: Iraque e Líbano. O que ocorre no Líbano pode rapidamente alterar a realidade em Israel, como expliquei em meu último texto, em virtude do protagonismo do Hezbollah no cotidiano político, militar e social libanês. E também, claro, dada a inabilidade do grupo e de seu principal patrocinador, o Irã, em construir ambientes democráticos e lidar com divergências populares internas. 

De todo modo, no lado israelense da fronteira, as duas lideranças que poderiam resolver a situação ainda não foram capazes de encontrar uma saída de forma a evitar uma terceira rodada eleitoral em sequência. Apesar de ninguém estar interessado neste desfecho, ele se aproxima do horizonte a cada dia. Nem o líder do partido Azul e Branco, Benny Gantz, nem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu conseguiram até o momento a formação de uma coalizão suportada por ao menos 61 membros do Knesset, o parlamento israelense. 

Ninguém quer ceder e abrir mão de alianças e compromissos estabelecidos. É possível resumir as razões deste impasse num único parágrafo; Netanyahu e Gantz dizem estar abertos à formação de um governo de união nacional, uma vez que isoladamente não conseguem alcançar o número de 61 membros em suas coalizões. O problema é que o primeiro-ministro fechou acordo após as eleições para negociar apenas em conjunto num bloco que reúne partidos de direita e partidos ortodoxos. No entanto, Gantz diz que poderia aderir a um governo com o Likud, desde que este abandonasse seus aliados ortodoxos - e Netanyahu não quer abrir mão deste acordo. 

Para complementar esta explicação, vale relembrar o resultado eleitoral de setembro: o Likud obteve 32 cadeiras; Shas, 9; Judaísmo Unido da Torá, 7; Yamina, 7. Este é o bloco fechado com Netanyahu. O resultado somado é de 55 membros. 

Já o lado oposto, liderado por Gantz: Azul e Branco, seu partido, elegeu 33 parlamentares; a união entre os partidos Trabalhista e o Gesher, 6; Campo Democrático, 5; e a Lista Árabe Unida - aliança entre quatro partidos árabes que concorreram em conjunto - conseguiu emplacar 13 representantes no Knesset. E a posição da representação política dos árabes-israelenses é mais complicada. 

Cerca de 20% da população de Israel é árabe. E é sempre importante deixar claro que não se tratam dos palestinos que vivem na Cisjordânia e em Gaza. Os árabes-israelenses vivem no interior das fronteiras de Israel e são cidadãos israelenses. Os parlamentares eleitos representam este setor da sociedade de Israel. Em apenas uma oportunidade, durante o governo do ex-primeiro-ministro Yitzhak Rabin, um partido árabe apoiou a coalizão de governo. Apoiou, mas não aderiu, vale dizer. 

Após as eleições de setembro deste ano, dez dos 13 parlamentares árabes eleitos recomendaram ao presidente Reuven Rivlin que Benny Gantz tivesse a oportunidade de formação de governo - gesto simbólico com ampla repercussão política interna no país. Desta maneira, haveria o potencial de dez desses políticos serem contabilizados no cálculo da coalizão capitaneada por Gantz, resultando, portanto, em 54 parlamentares - número que tampouco permite ao líder do Azul e Branco chegar a uma maioria simples. 

Como escrevi em minhas análises anteriores, nenhum dos dois líderes - Gantz e Netanyahu - acredita que a realização de uma terceira rodada eleitoral possa ser positiva. Nem sob aspecto pessoal, nem nacional. A sociedade israelense, assim como ocorre em boa parte dos demais países, enxerga os políticos e a política com um misto de desconfiança, impaciência e desprezo. A possibilidade de novas eleições reforça este tipo de percepção do senso-comum. Em função disso, como votar não é determinação obrigatória, é possível que, neste cenário eventual, o comparecimento às urnas seja baixo, tornando os resultados imprevisíveis ou reafirmando a situação de impasse. 

Talvez, como escrevi, Gantz esperaria unir-se a Netanyahu num governo de união nacional temporariamente, uma vez que o atual primeiro-ministro pode ser obrigado a retirar-se de cena em função dos processos a que responde. Se for confirmado seu indiciamento, Gantz permaneceria como primeiro-ministro interino, nome do cargo que ocuparia enquanto Netanyahu se dedicasse a se defender na Justiça. No entanto, Netanyahu não aceita as condições exigidas por Gantz, como expliquei acima. Assim, o impasse permanece. Sem qualquer visulumbre de solução no horizonte.