A contestação regional e popular ao projeto do Irã

05 de Dezembro de 2019
Por Henry Galsky Sob o véu da cumplicidade da comunidade internacional, Irã e Iraque neste momento reprimem manifestações populares sem nenhum constrangimento. Na prática, os dois países se sentem absolutamente à vontade para assassinar os próprios cidadãos sem qualquer temor de reprimendas ou investigações mais sérias. 

Curiosamente, ambos os governos experimentam o desafio de lidar com protestos de cidadãos menos interessados em conceitos ou planos de expansão regional (foco permanente da cúpula política de Teerã, em especial) e mais na resolução de questões práticas nacionais. 

No Iraque, as manifestações apresentam demandas relacionadas a problemas econômicos, acusações de corrupção contra membros do governo e ausência de serviços que deveriam ser responsabilidade do poder público, como fornecimento de eletricidade e água. Os protestos da população já resultaram na realização das maiores manifestações no país desde a derrubada de Saddam Hussein em 2003. 

Sem se importar com críticas internacionais - porque elas são inócuas ou inexistentes -, a repressão ocorre por meio de violência. Já são mais de 330 mortos pelo próprio governo desde outubro. Iraque e Irã estão entrelaçados nesta situação. Um dos pontos a merecer críticas por parte da população iraquiana é o interesse de membros da cúpula política em atender às expectativas de potências estrangeiras. Esta é uma crítica endereçada ao Irã.

Em seu projeto de expansão regional, a aliança com o governo xiita iraquiano é parte da estratégia do Irã da mesma forma como o estabelecimento de bases na Síria, o financiamento de grupos paramiltares xiitas por toda a região, o armamento de Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina, o suporte aos houthis no Iêmen etc. Não é segredo a ninguém. A população iraquiana é um dos grupos diretamente atingidos pela fragilidade do governo na abordagem a demandas domésticas em nome de articulações internacionais.  

No início de novembro, bombas foram atiradas contra o consulado iraniano em Najaf, cidade localizada no centro-sul do país e 160 quilômetros distante da capital Bagdá. Houve manifestações também contra prédios de organizações e do governo do Irã em outros pontos do Iraque. Na repressão ao ataque contra o consulado do Irã, as forças militares iraquianas provocaram a morte de 45 manifestantes. 

A situação no Irã não é muito diferente. Em 15 de novembro, as manifestações contra o aumento de 200% no preço do combutível rapidamente seguiram o caminho de questionamento popular ao regime linha-dura do país. O ano de 2019 marca o 40º aniversário da Revolução Islâmica de 1979. E, claro, o regime não topa contestação. 

De acordo com a Anistia Internacional, a tentativa do governo de interromper os protestos pela força já resultou em 208 mortes. Ainda de acordo com a organização, as famílias das vítimas têm sofrido ameaças e vem sendo alertadas a não falar com a imprensa ou mesmo realizar funerais de seus entes mortos. Algumas das famílias são obrigadas a pagar valores muito altos para conseguir acesso aos corpos dos parentes. 

O fato é que não apenas internamente ou no Iraque a população comum tem desafiado os planos regionais do Irã. O mesmo já ocorre no Líbano, território estrategicamente relevante ao Irã em seu projeto de conexão entre Teerã e o Mediterrâneo e também manutenção permanente da ameaça a Israel. E a cúpula do regime em Teerã não sabe lidar com este tipo de movimentação popular. Justamente por causa disso os iranianos estão em busca de novas estratégias; porque perceberam que precisam apresentar novos cenários e mudar o jogo que no momento lhes soa desfavorável.