A visão iraniana sobre as mudanças no Oriente Médio

11 de Dezembro de 2019
Por Henry Galsky De forma a complementar meu texto anterior, é importante dizer que as movimentações no Oriente Médio neste momento apontam o caminho mais temido à cúpula política iraniana: a contestação popular ao regime. Como escrevi, este é um aspecto que pode alavancar mudanças regionais profundas, uma vez que a força internacional do Irã foi construída ao longo dos anos e apresenta aliados de peso nos campos ideológico, político e militar. 

Com a situação econômica em declínio no próprio Irã, no Iraque e no Líbano, as manifestações populares são percebidas como uma ameaça real à manutenção do regime em Teerã. E este é o ponto final, o destino que as autoridades locais jamais aceitarão. E aí o que se pode imaginar como o mínimo de pragmatismo do regime cai por terra. 

O ataque com drones à Aramco, a companhia estatal de petróleo saudita, em 14 de setembro, foi um passo estudado de forma a marcar posição diante das sanções econômicas aplicadas pelos EUA. Desde maio de 2018, o governo Trump determinou a retirada unilateral dos EUA do acordo sobre o programa nuclear iraniano firmado pelo antecessor Barack Obama. 

De acordo com a agência de notícia Reuters, a decisão do ataque à Aramco ocorreu depois de ao menos cinco encontros secretos entre os mais altos oficiais militares do Irã e o Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, a maior autoridade do país. 

Inicialmente, a intenção era atingir um porto saudita, um aeroporto e instalações militares norte-americanas. Mas a ideia não foi levada adiante porque a possibilidade de muitas perdas humanas levaria a uma possível resposta mais assertiva por parte dos EUA. 

No final, a cúpula iraniana teria fechado questão sobre o ataque com drones. O lançamento teria ocorrido a partir de uma base aérea no sudoeste do Irã, e os drones teriam seguido por Iraque e Kuwait antes de chegar à Arábia Saudita. A rota esconderia a participação direta do Irã. 

Este é um momento de ambiguidades. Sob o ponto de vista macro, os iranianos, apesar das sanções, estão confortáveis com a decisão anunciada em outubro deste ano por Donald Trump determinando a retirada de seus soldados da Síria. A decisão de Trump deu ainda mais poder regional aos russos. E é sempre bom lembrar que a Rússia é exemplo raro de ator global que, no Oriente Médio, tem livre acesso a todos os estados nacionais, inclusive ao duro regime iraniano. 

No entanto, por outro lado, o enfraquecimento regional norte-americano foi acompanhado também por sanções econômicas ainda mais pesadas por parte de Washington e pelo movimento de contestação popular sobre o qual tenho tratado. O regime em Teerã não sabe lidar com isso sem exercer punição violenta aos manifestantes. O mesmo raciocínio se aplica a seus aliados no Iraque e no Líbano (o Hezbollah, grupo terrorista com enorme participação política e social na estrutura do estado libanês). 

Para resumir, o regime iraniano hoje toma decisões baseadas em elementos de certa forma contraditórios: a saída dos EUA da Síria e a consolidação da Rússia como principal potência regional; a decisão de Washington de aprofundar sanções, aumentando também a contestação interna do regime; e, por fim (pelo menos neste enquadramento que fiz), as revoltas populares contra aliados importantes que garantiam a percepção de sucesso da estratégia internacional iraniana. 

É evidente que este somatório tem levado às autoridades em Teerã a perceber o aprofundamento da contestação ao próprio regime, o maior temor do governo. Os próximos passos podem ser mais pragmáticos (o que seria positivo) ou ainda mais ideológicos de forma a buscar unir a população diante da narrativa de ameaças externas, um caminho até bastante óbvio. Se optar por esta última opção, aí o Irã tem o poder de desestabilizar todo o Oriente Médio.