Eleições britânicas, antissemitismo e o fracasso do Partido Trabalhista

16 de Dezembro de 2019
Por Henry Galsky, de Israel O Partido Trabalhista britânico sofreu a sua pior derrota desde 1935. Já os Conservadores tiveram seu melhor desempenho desde a terceira reeleição de Margaret Thatcher 32 anos atrás. Esses resultados não podem ser explicados apenas pela discussão em torno do Brexit ou pela grande admiração e confiança dos britânicos em seu primeiro-ministro Boris Johnson. Longe disso.

O debate envolveu um elemento antigo que corrói a sociedade de tempos em tempos e que voltou ao palco central na Grã-Bretanha: o antissemitismo.

A escolha de Jeremy Corbyn como líder do Partido Trabalhista, em 2015, fez o debate sobre ódio, estigmatização e incitamento contra os judeus retornar com toda a força.

O líder trabalhista tem em sua biografia a amizade, proximidade e afeto por organizações como Hamas, Hezbollah, o regime iraniano, dentre outros. Não é raro que se associe a grupos que negam o Holocausto. Sim, existia a possibilidade de que a Grã-Bretanha tivesse alguém com essa rede de alianças como primeiro-ministro.

Não por acaso, publicações que normalmente manifestam apoio a candidatos trabalhistas - como o Observer e o New Stateman - abdicaram de fazê-lo diante deste quadro.

Mesmo tentando corrigir declarações e posicionamentos passados, a caixa de Pandora de Corbyn e de seu partido se abriu a ponto de a legenda ser objeto de investigação por parte da agência britânica encarregada de crimes de racismo.

No domingo anterior às eleições, o Sunday Times publicou informações dando conta da incapacidade da unidade interna do Partido Trabalhista de expulsar os membros antissemitas. Para piorar a situação, ficou clara a opção por esconder ou não punir parte dos envolvidos.

O comitê do partido preferiu ficar calado ou dar apenas um aviso em metade dos cem casos em que membros internos fizeram declarações de ódio aos judeus.

Para ilustrar, vale dizer que o material das investigações obtido pela imprensa apontou o silêncio institucional diante de comentários internos com o seguinte conteúdo: "precisamos exterminar todos os judeus do planeta", "os judeus são um vírus que precisa ser completamente eliminado", "os judeus devem ser afogados no Mar Vermelho", "não devemos eliminá-los com gás porque precisamos disso na Inglaterra", "os judeus são responsáveis pelo terrorismo do IRA", "pelo 11 de Setembro" etc.

A publicação dos casos e da forma como o partido preferiu se omitir levou, por exemplo, a ex-parlamentar Dame Louise Ellman a decidir deixar a legenda após 55 anos.

Esse silêncio sinistro por parte do partido que argumenta defender as minorias e lutar pela justiça e igualdade na sociedade britânica expôs enormes contradições entre discurso e prática. Ao mesmo tempo, o vencedor principal nas eleições, o conservador Boris Johnson, ostenta o pior índice de popularidade de um novo primeiro-ministro em 40 anos. 

É difícil precisar o quanto os casos de antissemitismo no Partido Trabalhista foram fundamentais na construção do resultado catastrófico dessas eleições. Mas é possível dizer que o conhecimento da sociedade mais ampla sobre a situação e a forma vacilante como o partido e sua liderança trataram o assunto contribuíram para formar o imaginário acerca do radicalismo e de posições racistas de parte importante dos militantes e, mais importante, do próprio líder da legenda.  

Fica a impressão de que os britânicos fizeram a escolha possível, descartando com veemência o que é inaceitável. Ao se fechar em torno de Corbyn, os trabalhistas pagaram um preço alto e jogaram a vitória no colo de Johnson.