O impeachment de Trump e a polarização na política dos EUA

20 de Dezembro de 2019
Por Henry Galsky E o presidente norte-americano Donald Trump sofreu o impeachment na Câmara dos Deputados. A aprovação representa não o resultado final, mas uma primeira etapa de um processo de investigação que, após acusação e defesa, terminará no Senado.É improvável que Trump seja removido do cargo, uma vez que, para isso, seriam necessários 67 votos. Os Democratas e seus aliados detêm 47 assentos no Senado. 

Como os EUA têm tomado o rumo do partidarismo político exacerbado nas discussões, é quase impossível imaginar que parte dos senadores republicanos se voltaria contra o presidente. Como expliquei no texto onde abordei inicialmente este assunto, em 2 de outubro, a Câmara é de maioria Democrata; já o Senado, de maioria Republicana. São 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes. Tomando como certeza os dois votos de independentes a favor dos democratas, seria preciso que 20 senadores republicanos se unissem aos rivais. 

E este é um ponto importante; a ideia de rivalidade entre os dois partidos é interpretada como um processo em curso, algo que se acentua pelo menos desde os últimos dois presidentes anteriores a Trump: Barack Obama e George W. Bush. Há muitas leis e posições historicamente de concordância entre democratas e republicanos, algo que os norte-americanos chamam de "bipartisanship", ou bipartidarismo. 

Mas há uma transformação que pode pôr em risco esta prática, uma instituição do jogo político nos EUA. Com Donald Trump na presidência e sua maneira particular de ver o mundo e a política doméstica, o caldo entornou. A ponto de observadores e analistas pontuarem que a discussão sobre o impeachment na Câmara foi tão intensa que os representantes pareciam defender "países distintos". 

A polarização instalada nos EUA e em boa parte do mundo - inclusive aqui - não encontra precedentes. A campanha eleitoral que resultou na eleição de Donald Trump, as acusações à então candidata Hillary Clinton, as fake news, o uso estratégico dos bancos de dados e informações das redes sociais de modo a encaminhar mensagens direcionadas - e muitas vezes mentirosas - transformaram o cenário mundial e tiveram enorme impacto no modo global de se fazer política. Os limites deixaram de existir. A verdade foi flexibilidade. Os dados e as informações passaram a elementos da permanente disputa de narrativas. 

Essas feridas permanecem abertas. O impeachment de Trump está inserido neste cenário, não é possível analisá-lo sem levar em consideração este contexto. A Era Trump em vigor deverá ser lembrada como transformadora menos por questões de metas alcançadas ou promessas de campanha cumpridas ou não e mais pela exacerbação do discurso. A polarização é uma via de mão-dupla. Os democratas também estão no jogo. Tanto que a própria presidente da Câmara, Nancy Pelosi, fez a seguinte declaração à Washington Post Magazine em maio deste ano:

"O impeachment divide tanto o país que, a não ser que haja algo tão convincente, avassalador e bipartidário, eu não acho que devemos seguir esse caminho, porque divide o país. E ele (Trump) simplesmente não vale a pena". 

Esta declaração foi dada publicamente em maio. Em dezembro, há um resultado completamente oposto. O país está dividido e, para além das questões práticas envolvendo a acusação, não há de nenhuma maneira consenso entre os dois partidos. O espectro político norte-americano está mais dividido do que nunca. 

Nancy Pelosi e os democratas podem ter mudado de ideia em função da própria polarização. Mesmo sabendo que dificilmente o presidente será obrigado a deixar o cargo em função das questões práticas apresentadas acima, possivelmente o propósito do processo seja simplesmente o de reafirmar os pesos e os aspectos que determinam os limites do jogo político do país. Como uma lição a alguém que deixa claro que não está disposto a ser limitado seja lá pelo o que for - constituição, tradição, Suprema Corte etc. 

Mas este processo talvez não seja necessariamente ruim ao projeto de reeleição de Trump. A polarização chegou também ao partido Democrata. Para Trump, o cenário ideal seria que seus adversários escolhessem alguém mais à esquerda entre os democratas, como o senador Bernie Sanders ou a senadora Elizabeth Warren. Mas pesquisa realizada pelo Wall Street Journal e pela NBC News ainda apontam Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, como favorito, com 28% da preferência. Sanders tem 21% e Warren, 18%.