EUA respondem a ataques de grupo aliado ao Irã

30 de Dezembro de 2019
Por Henry Galsky Um grupo iraquiano aliado ao Irã atacou a base conhecida como K1, em Kirkuk, no norte do país, cidade 238 quilômetros distante da capital Bagdá. O Kataib Hezbollah (KH) lançou cerca de 30 mísseis sobre a base, provocando a morte de um empreiteiro civil norte-americano e ferindo outros quatro cidadãos dos EUA. 

Como resposta, Washington realizou ataques aéreos a posições do KH no Iraque e na Síria, matando 25 membros do grupo. É a primeira ofensiva dos EUA a um grupo terrorista aliado ao Irã desde 2011. 

O líder do KH, Abu Mahdi al-Muhandis, é um dos homens mais poderosos do Iraque. Suas relações próximas à Força Quds, unidade de elite do Corpo da Guarda Revolucionária do Irã responsável por operações no exterior, demonstram não apenas seu papel importante no Iraque mas também é mais um exemplo da atuação internacional iraniana em sua estratégia de busca pela consolidação hegemônica regional. 

Apesar da nomenclatura e da aliança com Teerã o Kataib Hezbollah não é o Hezbollah, a milícia xiita libanesa sobre a qual trato com mais frequência por aqui. 

No entanto, a movimentação do KH no Iraque neste momento e a decisão de lançar ataques contra alvos norte-americanos no país podem demonstrar questionamentos que hoje também se aplicam ao grupo libanês. Tanto o Hezbollah quanto o KH e o próprio regime iraniano atravessam uma fase com dilemas novos. 

Neste período, a população do Iraque tem ido às ruas protestar contra os muitos problemas domésticos, como falta de oportunidades de trabalho, precariedade econômica, acusações de corrupção contra membros do governo e ausência de serviços que deveriam ser de responsabilidade do poder público, como fornecimento de eletricidade e água.

Dessa vez, os iraquianos comuns culpam a influência do Irã, e por isso também tem atacado alvos do país em território iraquiano. É o tipo de contestação rara e que requer muita coragem. Em regimes desacostumados a questionamentos como esses, as pessoas costumam pagar com a vida. No caso iraquiano, essas manifestações são as maiores desde a queda de Saddam Hussein, em 2003. Mas a resposta do governo lembra aquele período; já são 460 mortos e 25 mil feridos. 

Não é uma guerra, mas este é o posicionamento institucional diante de cidadãos do país que saem às ruas para se manifestar. Como sempre escrevo por aqui, o desequilíbrio de cobrança internacional - por parte da ONU, das instituições, da cobertura - é grotesco. O governo iraquiano pode fazer com seus cidadãos o que bem entender com a garantia de que não sofrerá maiores constrangimentos. 

A questão é que esses ataques do KH - possivelmente por ordem de seus patrões em Teerã - podem sinalizar a resposta para lá de óbvia do Irã e de seus aliados regionais a este movimento popular mais consistente no próprio Irã, Iraque e Líbano. 

Sem inimigos externos a se culpar, o regime iraniano pode buscar o caminho do confronto de forma a manter suas aspirações regionais. No meio disso tudo, caberá aos russos, os novos patrões do Oriente Médio, encontrar algum ponto de equilíbrio, afinal investiram pesado na estabilização da Síria e não querem criar novos confrontos. Esta é a década que Moscou substituiu Washington na região.