A morte de Qassem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária Iraniana

03 de Janeiro de 2020
Por Henry Galsky Qassem Soleimani é peça fundamental da estratégia iraniana em busca de hegemonia regional. A eliminação do chefe da força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária é um ato que atinge e assombra profundamente o regime de Teerã.

Soleimani articulou posições favoráveis ao Irã ao longo deste século, redesenhando o mapa do Oriente Médio. Em estados falidos, como o Iêmen, ou prestes a ruir, como a Síria, encontrou espaço e os grupos terroristas de que necessitava para construir a ampla rede de alianças que transformou o regime em líder e financiador do eixo xiita regional.

Ele também atuou na tentativa contínua do estabelecimento de bases no lado sírio das Colinas de Golan de forma a ameaçar Israel e também teve papel fundamental na transferência de recursos e armamentos que hoje dão ao Hezbollah, a milícia xiita libanesa, arsenal estimado em 130 mil mísseis apontados contra o Estado judeu.

A morte ao desembarcar no aeroporto de Bagdá - num momento de grande tensão entre EUA e Irã no Iraque - não representa exatamente uma surpresa, mas joga a bola para o lado iraniano da disputa.

Dificilmente o regime de Teerã deixará de agir. Mas aí me recordo do ataque com drones à Aramco, estatal saudita produtora de petróleo, em setembro de 2019. Naquela ocasião, como escrevi por aqui, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, atuou pessoalmente e optou pela ação contra os sauditas, quando outros membros da cúpula de poder do país defendiam a realização de atentados a bases militares norte-americanas no Oriente Médio.

Se Khamenei certamente não pode ser considerado um pacifista ou moderado, decidiu naquele momento contornar um ato que causaria uma resposta dos EUA. Muito importante lembrar também que o assassinato de Soleimani possivelmente é parte da estratégia norte-americana para impedir a ascensão do poderio iraniano no Iraque.

Talvez agora Khamenei não opte por evitar os EUA. Mas ainda assim atacar bases do país na região seria um risco muito grande. Diante deste quadro, é possível que Israel seja o país mais ameaçado neste momento. Por isso, a intensidade e as escolhas do Irã podem determinar o futuro próximo do próprio regime e do Oriente Médio de maneira mais ampla.