O poder de Soleimani no confronto com os EUA

06 de Janeiro de 2020
Por Henry Galsky Os norte-americanos vão às urnas eleger seu novo presidente - ou manter o atual - em novembro deste ano que acabou de começar. A política externa pode não ser um fator decisivo na escolha, mas a atuação dos EUA no mundo rende debates importantes entre os candidatos. Donald Trump é um presidente cujo processo de tomada de decisão é mais impulsivo do que o de seus antecessores. 

A informação de que membros da administração em Teerã aguardam a derrota de Trump para decidir negociar com o novo presidente - possivelmente Democrata - certamente enfurecem Trump, que, apesar do assassinato de Soleimani, ainda se mantém interessado em encontrar alguma dinâmica de acomodação com os iranianos. 

É possível que a decisão de eliminar o general iraniano tenha o objetivo de mandar dois recados de uma vez só: aos adversários externos em Teerã - que vão ter que levar a sério seu principal temor, a queda do regime - e a seus adversários políticos internos - a quem o atual presidente quer deixar claro que está disposto a ir às últimas consequências antes do pleito de novembro, construindo de fato um novo modelo de abordagem, se é que podemos definir o ocorrido desta maneira. 

Outro aspecto dessa decisão tem a ver com o passado recente do Oriente Médio. Ao longo dos 21 anos em que Soleimani ocupou a liderança da Força Quds, o Hezbollah libanês deixou de ser apenas mais um grupo terrorista local e se tornou parte da estrutura formal do Líbano, tendo grande influência no governo e ostentando aparato militar superior inclusive ao das forças regulares. O Hezbollah é um Estado dentro do Estado, não apenas sob o ponto de vista militar, mas também com grande participação nas demais esferas sociais e políticas. Soleimani foi um dos agentes desta transformação. 

Em frequente movimentação no Oriente Médio, as vitórias do general se estendiam da Síria ao Iêmen, passando por Gaza, pela Cisjordânia e também pelo Iraque. A atuação do general na construção da estratégia de contenção dos protestos populares dos cidadãos iraquianos era apenas uma das evidências da influência que exercia no país. Como a rede de grupos terroristas aliados é extensa, possivelmente os EUA temiam que Soleimani repetisse o modelo do Hezbollah no Iraque. 

Há outros elementos que podem ter motivado a decisão de Trump; a tentativa de manifestantes pró-Irã no Iraque de invasão à embaixada dos EUA em Bagdá mostra o poder exercido por Teerã no país, além de representar dois grandes fantasmas norte-americanos: em 11 de setembro de 2012, o consulado do país em Benghazi, na Líbia, foi invadido e quatro membros do corpo diplomático dos EUA, inclusive o embaixador Christopher Stevens, foram mortos. Por esse episódio, a então secretária de Estado Hillary Clinton teve de prestar esclarecimentos no Congresso. A invasão em Benghazi também foi usada como artilharia contra Clinton durante a corrida presidencial de 2016. 

Outra invasão traumática ocorreu em 1979, quando estudantes iranianos fizeram 52 reféns e exigiram que o xá Reza Pahlevi, que estava nos EUA, fosse extraditado para ser julgado no Irã. A invasão mostrou a marca do então novo nacionalismo iraniano que derrubou Pahlevi e iniciou o regime ainda em vigor no país. Permitir, portanto, que a embaixada norte-americana fosse invadida em 2020 por grupos aliados ao governo de Teerã deixaria Trump em posição bastante delicada.