Novo ataque houthi no Iêmen e a posição internacional do Irã depois da crise com os EUA

23 de Janeiro de 2020
Por Henry Galsky Na guerra entre forças sunitas lideradas pela Arábia Saudita contra a milícia xiita houthi apoiada pelo Irã mais um episódio dramático: depois que os houthis lançaram um míssil contra uma mesquita numa base militar na província central de Marib, no Iêmen, 116 mortes foram contabilizadas.

Este pode ser mais capítulo da vingança prometida pelos iranianos depois da escalada com os EUA. Como tenho escrito por aqui, a guerra por procuração faz parte do modo de atuação do Irã. A extensa rede de alianças mantida pelo país o auxilia em seu processo de expansão regional.

Coordenar com os houthis um ataque como este se encaixa no histórico da estratégia iraniana, que tem como alvos prioritários sauditas e israelenses. Como Israel mantém vigilância permanente, tem território muito menor que a Arábia Saudita e não lidera empreitadas militares no exterior, deixa também menos opções de vulnerabilidade.

Mais ainda, Israel tem realizado ofensivas pontuais e frequentes a alvos regionais, especialmente a comboios com armamento iraniano destinado ao Hezbollah, no Líbano, e também a bases do Irã estabelecidas na Síria e no Iraque.

Ao mesmo tempo, enquanto declara que os compromissos com o acordo nuclear não valem mais, os iranianos anunciam que deixarão o acordo de não-proliferação de armas nucleares caso os países europeus optem por submeter a questão ao Conselho de Segurança da ONU.

A ameaça do Irã faz parte do posicionamento do país de reafirmar seu isolamento da comunidade internacional. Em especial, o distanciamento dos ocidentais. A postura é uma estratégia para vender caro qualquer aproximação e conseguir se livrar das sanções.

Talvez o regime de Teerã ainda esteja buscando se aproveitar do vácuo do temor internacional amplificado após a crise recente com os EUA. A declaração sobre a intenção de deixar o acordo de não-proliferação de armamento nuclear e a ausência do ministro das Relações Exteriores, Javad Zarif, do Fórum Econômico Mundial podem ser complementares. Justamente para reforçar o isolamento neste período de tensão.

Está claro também que, apesar do interesse da Casa Branca numa aproximação, os iranianos não estão minimamente inclinados a voltar a negociar com os EUA. Pelo menos até que um novo presidente norte-americano seja eleito. A expectativa de Teerã é que Donald Trump não consiga reeleger-se.

Contexto do confronto da guerra no Iêmen

Desde março de 2015, a Arábia Saudita lidera uma coalizão de forças sunitas em guerra contra os rebeldes houthis – xiitas apoiados pelo Irã no Iêmen. Este conflito já matou mais de dez mil civis, deixou mais de 50 mil feridos, causou fome em larga escala e provocou, entre outras doenças, a maior epidemia de cólera mundial.

Para quem não conseguiu acompanhar a cobertura especial sobre os recentes episódios de confronto entre Irã e EUA, seguem os links dos textos que publiquei no Facebook:

A resposta norte-americana à retaliação iraniana
https://www.facebook.com/cartaecronica/posts/1467031313420735?__tn__=K-R

O poder de Soleimani no confronto com os EUA
https://www.facebook.com/cartaecronica/posts/1463278293796037?__tn__=K-R